2 de abril de 2017

RALPH L. SMITH - O reavivamento da teologia do Antigo Testamento

REAVIVAMENTO ANTIGO TESTAMENTO

O reavivamento da teologia do Antigo Testamento

O que causou essa súbita mudança na teologia do Antigo Testamento? O que a trouxe de volta à vida? A principal causa da mudança na teologia e nos estudos bíblicos foi a “precipitação radioativa” da Primeira Guerra Mundial. Antes de 1917, a atitude que prevalecia no mundo ocidental era de confiança no progresso inevitável. As pessoas podiam erguer-se por seus próprios esforços de qualquer crise e transformá-la em meio para alcançar um padrão mais elevado de vida.

E então em apenas uma geração ocorreram duas guerras mundiais, com toda sua destruição, devastação, crueldade, ódio e alienação. A confiança no progresso inevitável e na bondade e capacidade inerentes à humanidade foi esmagada. As pessoas começaram a buscar uma fonte de força e uma palavra de orientação fora de si mesmas. Algumas encontraram essa força e orientação na Palavra de Deus.

Karl Barth descreveu a mudança na teologia depois de 1918:

O fim efetivo do século XIX como os “bons velhos tempos” chegou para a teologia e para tudo o mais com o ano fatídico de 1914. Acidentalmente ou não, naquele mesmo ano um evento significativo aconteceu. Emst Troeltsch, famoso professor de teologia sistemática e líder da escola mais moderna de então, desistiu de sua cadeira de teologia por uma de filosofia.

Um dia no começo do mês de agosto de 1914 sobressai em minha lembrança como um dia negro. Noventa e três intelectuais alemães impressionaram a opinião pública ao proclamar apoio à política de guerra de Guilherme II e seus conselheiros. Descobri horrorizado que entre esses intelectuais encontravam-se quase todos os meus professores de teologia pelos quais eu tinha grande veneração. Desesperado em saber o que isso indicava acerca dos sinais dos tempos, percebi de repente que eu não podería mais seguir a ética ou a dogmática deles nem o entendimento que eles tinham da Bíblia e da história. Para mim pelo menos a teologia do século XIX não tinha mais nenhum futuro. Para muitos, se não para a maioria das pessoas, essa teologia não voltou a ser novamente o que era antes, uma vez que as águas da chuva que caiam sobre nós naquela época perderam um pouco de sua força.[1]

James Smart disse que o comentário de Karl Barth sobre Romanos, publicado em 1919, foi “como a explosão de uma bomba, ou melhor, como a introdução de uma substância química que provocou a separação dos elementos divergentes que se haviam misturado nos estudos eruditos do Novo Testamento”.32 Segundo Smart, a origem do comentário de Romanos foi a frustração sentida por dois pastores suíços, Barth e Thumeysen, ao tentar cumprir seus votos de ordenação para serem ministros da Palavra de Deus junto ao seu povo. Ambos tinham sido treinados em crítica histórica, mas não na compreensão da Palavra de Deus como revelação única de Deus ao povo. Contudo, era esse o ponto a partir do qual tinham de falar como ministros de Deus.

Barth e Thumeysen voltaram-se para Lutero, Calvino, Kierkegaard e outros, à procura de ajuda. Desafiaram as conclusões de um século de estudos eruditos do Novo Testamento. Os leitores encontraram de imediato muitas falhas no comentário (ele foi talhado de modo tão rudimentar que Barth começou a reescrevê-lo assim que acabou), mas os estudiosos do Novo Testamento foram obrigados a reconhecer a legitimidade da abordagem teológica.[2]

Karl Barth abriu o caminho para a nova teologia dogmática que influenciou a teologia bíblica quase imediatamente. As sortes dessas duas disciplinas muitas vezes têm andado de mãos dadas. A teologia bíblica tem vivido e morrido à sombra da teologia dogmática. Um interesse renovado na teologia do Antigo Testamento começou em 1921 quando Rudolf Kittel falou em Leipzig para um grupo de estudiosos do Antigo Testamento sobre “o futuro da ciência do Antigo Testamento”. Kittel deu ênfase à incapacidade da investigação literária e histórica e pediu a “elucidação dos valores especificamente religiosos do Antigo Testamento”. Disse que os estudiosos devem fazer uma apresentação sistemática da essência da religião do Antigo Testamento e se aprofundar no segredo do poder divino em que ela se baseia.[3]

O. Eissfeldt e W. Eichrodt discutiram de modo acalorado de 1926 a 1929 se a teologia do Antigo Testamento era uma disciplina histórica. Eissfeldt argumentava que a história da religião de Israel e a teologia do Antigo Testamento eram duas disciplinas distintas e devem usar métodos e alvos diferentes. Eichrodt insistia que os teólogos do Antigo Testamento poderiam chegar à “essência” da religião do Antigo Testamento por intermédio dos mesmos métodos histórico- críticos usados pelos pesquisadores da história da religião.[4]

Uma razão para o interesse renovado no Antigo Testamento depois da Primeira Guerra Mundial foi o fato de que muitos teólogos e políticos na Alemanha começaram a atacar o Antigo Testamento como parte de uma campanha de anti- semitismo. Durante os últimos anos da década de 1920 e especialmente na década seguinte, a luta na Alemanha concentrou-se no Antigo Testamento e começou a provocar pensamentos radicais sobre sua natureza e importância.

Esses pensamentos radicais foram expressos em obras como: Adolph von Hamack, Marcion, das Evangelium vom Fremden Gott[5]; Friedrich Delitzsch, Die grosse Tãuschung I e II; Houston S. Chamberlain, Foundations of the 19th century[6] [7] [8]·, Adolf Hitler, Mein Kampf (1925-1927); e Alfred Rosenberg, Myth of the 20th century (1930). Von Hamack disse que o Antigo Testamento devia ser retirado do cânon cristão e colocado no topo da lista dos apócrifos.” Friedrich Delitzsch, filho do famoso estudioso luterano conservador do Antigo Testamento Franz Delitzsch, era fortemente anti-semita. Ele considerava o Antigo Testamento um livro muito perigoso para os cristãos e também ensinava que Jesus era gentio.

Houston Steward Chamberlain nasceu em 1855 em uma família de posição elevada no exército inglês. A saúde fraca impediu-0 de prestar serviço militar e acabou com a possibilidade de ele lutar contra os alemães. Cedo em sua vida, Chamberlain tomou-se um apaixonado da arte alemã, levando-o a passar sua vida na Alemanha e na Áustria. Durante a primeira Guerra Mundial tomou-se cidadão alemão e amigo de Adolf Hitler no começo da década de 1920. Chamberlain viu a salvação da Alemanha vindo no movimento de Hitler, mas morreu em 1927, seis anos antes de Hitler tomar-se chanceler.”

Foundations, de Chamberlain, é uma obra em dois volumes em que ele argumenta que a história da Europa é um registro da luta entre indo-europeus e semitas. O ataque de Roma pelos cartigeneses e a invasão muçulmana da Europa foram dois exemplos dessa luta. Chamberlain via em Cristo uma pessoa de suma importância para a história do mundo e pensava que ele não era judeu. A obra de Chamberlain foi muito lida na Alemanha, desde a sua publicação (1889-1901) até 1918. O Kaiser doou pessoalmente dez mil marcos para a compra de exemplares para bibliotecas alemãs. Depois da guerra, sua popularidade retrocedeu; em 1938, porém, os nazistas a publicaram em forma de brochura barata, e ela passou por oito reimpressões com Hitler. Numa das edições populares, foi anunciado que mais de 200 mil exemplares tinham sido vendidos.

O regime nazista (1933-1945) caracterizou-se por racismo (pureza e superioridade da raça alemã), nacionalismo (supremacia do estado alemão) e ênfase na terra (santidade da pátria alemã). Por essa razão, tudo o que não era alemão ou ariano tinha de ser isolado e submetido ao controle do estado alemão. Os judeus, com sua Bíblia hebraica (Antigo Testamento), tomaram-se alvo de extermínio. Até

alguns estudiosos cristãos emprestaram sua influência à eliminação dos judeus e do Antigo Testamento. W. F. Albright escreveu que Gerhard Kittel, filho mais novo do destacado estudioso de hebraico Rudolph Kittel e editor do Theological Wordbook of the New Testament, “tomou-se porta-voz do mais feroz anti-semitismo nazista, compartilhando com Emanuel Hirsch, de Gottingen, o mérito sinistro de tomar o extermínio dos judeus teologicamente respeitável”.[9]

Segundo S. J. de Vries, o regime nazista na Alemanha tornou-se possível principalmente porque estudiosos bíblicos modernos antes de 1933 gostavam de considerar a fé do Antigo Testamento, e também a do Novo, uma expressão infantil do humanismo emergente —e nada mais. Agora 0 Antigo Testamento parecia distante; os judeus eram escarnecidos, junto com os cristãos tradicionalistas. [...] A modernidade moldara 0 Antigo Testamento a seu gosto; sua antiga palavra soberana não podia mais ser ouvida por ela. Se isso não tivesse acontecido, talvez a igreja europeia, especialmente a alemã, teria conservado suficiente zelo profético para opor-se às afirmações monstruosas do nacional-socialismo. Mas isso não aconteceu; já que 0 Antigo Testamento estava morto, os judeus tinham de morrer.[10]

O ataque aos judeus pelos nazistas também abrangia um ataque ao Antigo Testamento e ao cristianismo. Esse ataque levou a uma reação por parte de muitos estudiosos sensíveis à Bíblia e de muitos líderes cristãos, que defenderam o Antigo Testamento como parte integrante do cânon cristão e começaram novamente a concentrar-se na mensagem do Antigo Testamento para o Israel antigo e para as pessoas modernas.

É irônico que as primeiras obras completas sobre a teologia do Antigo Testamento depois do seu reavivamento foram publicadas em 1933, no mesmo ano em que Hitler se tomou chanceler da Alemanha. Foram elas a obra em dois volumes de Ernst Sellin, Alttestamentliche Theologie auf religionsgeschichtlicher Grundlage, e o primeiro volume da obra de três de Walther Eichrodt, Theologie des Alien Testaments.

Sellin (1867-1945) foi professor na Universidade de Berlim e editor da série de comentários KAT sobre o Antigo Testamento. A perspectiva de Sellin da teologia do Antigo Testamento era que ela devia apresentar de forma sistemática os ensinos religiosos e a fé da comunidade judaica, baseados nos escritos compilados e canonizados no período entre 500 e 100 a.C. Sellin disse que: 1) o cânon do Antigo Testamento é significativo para o teólogo do Antigo Testamento apenas à medida que era aceito por Jesus e pelos apóstolos; 2) a teologia do Antigo Testamento está interessada somente nas passagens cumpridas nos evangelhos; 3) o cristianismo foi baseado no Antigo Testamento, mas acrescentou-lhe algo novo; e 4) a teologia cristã do Antigo Testamento deve ser seletiva, deixando de lado a influência cananéia e também todo o lado nacional-cúltico da religião de Israel.

Uma das teologias mais importantes do Antigo Testamento é a obra em três volumes de Walther Eichrodt, Theologie des Alies Testaments.[11] Walther Eichrodt nasceu em Gernsback, na Alemanha, em agosto de 1890. Seus estudos incluíram o trabalho na escola teológica de Bethel-Bielefeld e nas universidades de Griefswald e Heidelberg. Em 1917, Otto Procksch nomeou-o Privatdozent em Erlangen. Em 1922 ele sucedeu Albrecht Alt numa cadeira remunerada de estudos bíblicos em Basiléia. Em 1934 foi nomeado catedrático pleno em Basiléia, e em 1953 foi eleito reitor da universidade.

Norman Gottwald chamou a teologia do Antigo Testamento de Eichrodt “a obra isolada mais importante do seu gênero no século XX”.[12] Robert C. Dentan chamou a obra “incomparavelmente maior que qualquer outra já publicada no campo da teologia do Antigo Testamento, tanto em termos de simples magnitude como de profundidade de percepção”.[13] John Baker, tradutor da Theology of the Old Testament de Eichrodt para o inglês, escreveu que “esta é a maior obra já escrita em seu campo, sem comparação —uma obra em que fé ardente e precisão científica se combinam para dar ao leitor uma experiência viva dessa nova realidade de Deus de que ele tanto fala”.[14]

O próprio Eichrodt escreveu no prefácio da sua primeira edição (1933):

A situação espiritual em geral e a teológica em particular está causando impressão cada vez mais peremptória em todos os que se ocupam da teologia do Antigo Testamento. Existem muitas descrições históricas da religião israelita e judaica; com isso, porém, contrasta que apenas tentativas muito rudimentares foram feitas para apresentar a religião da qual encontramos os registros no Antigo Testamento como uma entidade completa em si mesma, que exibe, apesar das condições históricas sempre em mudança, uma tendência e um caráter básico constantes.[15]

As preocupações de Eichrodt estão evidentes na declaração acima. Ele estava preocupado com seu ambiente espiritual e cultural. Estava preocupado em passar da história da religião de Israel para a “entidade completa em si mesma” no Antigo Testamento, que tem uma tendência básica e constância em meio a mudanças históricas. Eichrodt sugeriu que a “entidade completa em si mesma” é a aliança entre Javé e Israel.

Para ele, a aliança era o conceito central que ilumina a unidade estrutural e a tendência básica imutável da mensagem do Antigo Testamento. A ideia da aliança era mais abrangente que o uso do termo hebraico berií. Era um símbolo conveniente da descrição de um processo vivo que começou em determinado lugar e hora a fim de revelar a realidade divina única em toda a história da religião.[16]

Eichrodt disse que a teologia do Antigo Testamento se concentra em um quadro completo da esfera da fé do Antigo Testamento, a fim de compreender sua imensidade e singularidade. A singularidade da fé do Antigo Testamento pode ser vista com mais clareza em seu contraste com as religiões do antigo Oriente Próximo e no movimento poderoso e propositado na direção do Novo Testamento. O que une os dois Testamentos é “a vinda do reinado de Deus a este mundo e seu estabelecimento aqui”[17]. O mesmo Deus segue no mesmo propósito nos dois Testamentos.

Eichrodt emprestou seu esboço geral, que presumivelmente segue a dialética do Antigo Testamento, do seu professor Otto Procksch. O volume 1 se concentra no “Deus do povo”; o volume 2, no “Deus da Palavra”; e o volume 3, em “Deus e o ser humano” (ou seja, o indivíduo).

Hermann Schultz, no segundo volume da segunda edição inglesa (1895) da sua obra, usou um esboço semelhante ao de Procksch e Eichrodt: “Deus e o povo”, “Deus e a Palavra”, “Deus e o ser humano” e “a esperança de Israel”.

Ludwig Kõhler (1880-1956), professor em Zurique, era antes de tudo um estudioso de linguística. Ele e W. Baumgartner publicaram um léxico hebraico abrangente (Brill, 1953). Sua Old Testament Theology é breve e sem documentação. Está organizada em tomo dos tópicos da teologia sistemática: teologia, antropologia e soteriologia.. Kõhler tratou do culto no fim da parte sobre o ser humano. Disse que o culto não faz parte da área soteriológica (não faz parte do plano de salvação divino) nem da antropológica. Ele colocou seu estudo do culto no fim da seção sobre antropologia porque ele tem que ver com os esforços das pessoas para salvar a si mesmas.[18] Um conceito totalmente novo do culto surgiu a partir da obra de Kõhler, sendo ele visto agora como uma instituição que transmitiu boa parte da tradição do Antigo Testamento.

A importância da obra de Kõhler está em que ele, um linguista e historiador, interrompeu seu trabalho para escrever um manual breve, mas útil, sobre a teologia do Antigo Testamento. Um dos seus pontos fortes é seu estudo de pelo menos setenta palavras hebraicas. Apesar de Kõhler ter usado o esboço amplo da teologia sistemática, ele afirmou que um livro pode ser chamado de “teologia do Antigo Testamento se consegue reunir e relacionar as idéias, pensamentos e conceitos do Antigo Testamento que são ou podem ser importantes”. Kõhler acreditava que o tema central ou declaração fundamental na teologia do Antigo Testamento é: Deus é o senhor que governa. “Todas as outras coisas estão ligadas a isso. Todas as outras coisas podem ser entendidas como referentes a isso e apenas a isso. Todas as outras coisas se subordinam a isso”.[19]

Um dos estudiosos do Antigo Testamento mais influentes na Alemanha durante a primeira parte do século XX foi Artur Weiser. Ele não chegou a escrever uma teologia do Antigo Testamento, mas estudou o assunto com freqüência.[20] Weiser encarava a exegese como uma tarefa teológica, além de histórica e crítica. Segundo ele, ninguém compreende adequadamente uma passagem do Antigo Testamento determinando o sentido gramatical, sintático e histórico. A vida real da passagem está em sua religião (ou fé) e em seu caráter distinto.

Weiser argumentou que uma visão dinâmica da realidade perpassa o Antigo Testamento, com um modo teológico de ver as pessoas e os eventos no próprio texto. Ele acreditava que sistematizar a teologia do Antigo Testamento era contrário à compreensão dinâmica do próprio Antigo Testamento, apesar de concordar que há certo valor pedagógico em ordenar fatos dispersos. Weiser seguiu Barth no argumento de que a exegese deve realizar a tarefa teológica. Apesar de não escrever uma teologia do Antigo Testamento, Weiser iniciou e editou uma das mais importantes séries de comentários do Antigo Testamento, Das Alte Testament Deutsch (ATD). Um dos traços distintivos dessa série é sua ênfase na mensagem teológica de cada seção. Estudiosos como Gerhard von Rad, Martin Noth, Walther Eichrodt, Norman Porteous, Karl Elliger e o próprio Weiser foram colaboradores da série. Vários desses volumes foram traduzidos para o inglês, como parte da “Old Testament Library Series”.

Sem sombra de dúvida, um dos homens mais destacados no campo da teologia do Antigo Testamento foi Gerhard von Rad (1901-1971). Depois de estudos abrangentes em Erlangen e Tübingen, Von Rad tornou-se pastor de uma igreja luterana na Baviera em 1925. Sua luta diária com um crescente anti- semitismo levou-o a retomar aos estudos acadêmicos do Antigo Testamento em Leipzig. Otto Procksch e Albrecht Alt guiaram-no em seus estudos e em sua dissertação, Das Gottesvolk im Deuteronomium.[21]

Em 1930, von Rad juntou-se a Alt como professor em Leipzig. Em 1934 transferiu-se para Jena, onde florescia o nacional-socialismo. Ali von Rad foi um professor impopular, mas conseguiu envolver em debates ilegais na igreja muitos que não tinham se rendido ao anti-semitismo da época.[22]

Do verão de 1944 até junho de 1945, von Rad foi forçado a lutar pelo exército alemão, até ser preso pelos vitoriosos. Após a guerra ele ensinou brevemente em Bethel, Bonn e Erlangen, para depois mudar-se para Gottingen. Em 1949 transferiu-se para Heidelberg, onde ensinou até sua aposentadoria em 1967 e continuou a morar até sua morte em 1971.

Von Rad estudou a teologia do Antigo Testamento de uma perspectiva totalmente diferente de todos os seus predecessores. Ele viu uma relação muito próxima entre a teologia do Antigo Testamento e a crítica do Antigo Testamento. Todo aquele que deseja compreender a obra Teologia do Antigo Testamento de von Rad deve estar familiarizado com suas opiniões quanto à origem e transmissão da literatura do Antigo Testamento. Uma das suas primeiras obras foi The Form- Critical Problem of the Hexateuch, publicada em 1938, em que lançou os alicerces da sua Teologia do Antigo Testamento.

Von Rad argumentou que o Hexateuco (Gênesis-Josué) fora edificado sobre um antigo credo de culto, que agora se encontra em Deuteronômio 26.5b-9; 6.20-24; Josué 24.2-13; e 1Samuel 12.7-8. O editor javista tomou diversas tradições diferentes, antes ligadas a vários santuários tribais em Israel, e organizou-as na ordem que constituiu a moldura do Pentateuco. Von Rad interpôs um longo período de tempo entre o “evento” original (da promessa patriarcal, do êxodo e da conquista) e a redação do documento em que o relato do evento está preservado. Durante esse período, as “histórias” foram transmitidas oralmente, frequentemente no contexto de culto de um altar tribal. De acordo com von Rad, o javista foi um teólogo.

Um dos problemas que os sucessores de von Rad têm tido com sua perspectiva é a vasta distância entre seu conceito de “história santa” (o relato da sua história pelo próprio Israel) e o relato científico da história de Israel reconstruído pelos atuais estudiosos do Antigo Testamento. Mesmo dizendo que a teologia do Antigo Testamento está baseada na história, von Rad pareceu muito cético quanto à autenticidade de alguns personagens e eventos no Antigo Testamento. Outros estudiosos criticaram a obra de von Rad por faltar-lhe organização sistemática. Alguns disseram que sua maior obra na verdade é uma história das tradições de Israel e não uma teologia do Antigo Testamento.[23]

Joseph W. Groves escreveu uma dissertação doutoral sobre o método de interpretação de von Rad (e outros), intitulado “Actualization and interpretation in the Old Testament”,[24] em que declarou que “o alvo de uma base dentro da Bíblia para a interpretação teológico-histórica (como a de von Rad) ainda está por ser atingido”.[25]

O holandês Th. C. Vriezen publicou seu Hoofdinjnen der Theologie von het Oude Testament em 1949. Essa obra foi quase totalmente revisada na terceira edição em holandês (1966) e publicada como segunda edição inglesa em 1970. As primeiras 150 páginas do livro de Vriezen são introdutórias. Lidam com o lugar do Antigo Testamento na igreja, como ele deve ser interpretado, e a tarefa e método da teologia do Antigo Testamento. A parte principal do livro é dividida em quatro capítulos bastante longos: 1) o conhecimento de Deus; 2) o relacionamento entre Deus e ser humano; 3) a comunidade de Deus; e 4) o futuro. Vriezen via a comunhão, ou o relacionamento entre Deus e o ser humano, como central no Antigo Testamento.

Edmond Jacob, professor de Strasbourg, escreveu uma teologia do Antigo Testamento substancial mas popular em 1955. Sua obra Theologie de TAncien Testament foi traduzida para o inglês em 1958. Ela serviu como livro de referência popular de institutos e seminários bíblicos nesse campo por vinte anos. E clara e concisa, mas trata de modo adequado de quase todas as facetas da teologia do Antigo Testamento. Tem uma excelente introdução. A principal parte do livro segue um esboço sistemático modificado.

E surpreendente que nenhum estudioso britânico tenha escrito uma teologia completa do Antigo Testamento desde A. B. Davidson (1904). H. Wheeler Robinson e Norman Porteous escreveram diversos livros e estudos sobre a teologia do Antigo Testamento. Η. H. Rowley escreveu um volume, The Faith of Israel, em 1956, e outro, The Biblical Doctrine of Election, em 1948. Ronald E. Clements publicou sua Old Testament Theology, a Fresh Approach em 1978, mas a obra estava na verdade baseada em uma série de palestras no Spurgeon’s College em 1976 e admite representar apenas um estudo provisório.

H. Wheeler Robinson (1872-1945), estudioso britânico batista, conseguiu combinar erudição crítica sólida e fé evangélica fervorosa. Ele afirmou que o Antigo Testamento não consistia em um sistema de doutrina, mas era principalmente um drama divino representado na arena da história, onde Deus revelou a si e sua vontade por intermédio dos seus atos. Robinson reconheceu que falar de uma “revelação histórica” é um paradoxo. A história implica algum tipo de movimento dinâmico, quer seja isso chamado progresso, quer não; revelação implica verdade estática e permanente”.[26] A solução do paradoxo da relação entre a revelação que não se prende ao tempo e a história que muda encontra-se na “vida atual”, em que revelação e história formam uma unidade mesclada.[27]

De uma visão geral das obras de Robinson sobre a teologia do Antigo Testamento pode-se concluir que ele estava tentando seguir os pensamentos de Deus. Para ele, a chave da teologia do Antigo Testamento era a idéia de revelação, idéia que aparece nos títulos de muitos dos seus livros. Robinson quis deixar o Antigo Testamento falar por si mesmo. Ele sabia do perigo de impor algum sistema externo à sua mensagem, mas também sabia que algum princípio organizador era necessário para apresentar os dados do Antigo Testamento ao intérprete moderno. Ele acreditava que esses dados ligavam-se à vida e que todo o que esperava compreendê-los precisava ser pelo menos um “estrangeiro residente”.[28] Ele dividiu a teologia do Antigo Testamento em três partes: Deus e natureza, Deus e ser humano, e Deus e história, e apresentou as doutrinas características em proposições. Escreveu ele:

É inevitável formular isso numa série de proposições, para formar uma “teologia do Antigo Testamento”, mesmo que organizadas em ordem histórica. [...] Se elas são colocadas de modo tópico e não cronológico, como exige uma “teologia”, elas se tomam ainda mais abstratas e distantes da antes viva, vibrante e dinâmica religião de Israel.[29]

Eric Rust, um dos alunos de Wheeler Robinson, chegou aos Estados Unidos em 1952 como professor de teologia bíblica no Crozier Theological Seminary e tomou-se professor de apologética cristã no The Southern Baptist Theological Seminary em Louisville, no Kentucky, em 1953. Rust fez diversas contribuições para o campo da teologia do Antigo Testamento. Em 1953 publicou Nature and Man in Biblical Thought. No número de outubro de 1953 de The Review and Expositor, Rust tratou de “The Nature and Problems of Biblical Theology” (63-64). Em 1964 publicou seu livro completo, Salvation History,[30]י dedicado a H. Wheeler Robinson e T. W. Manson. Em 1969 Rust escreveu seu artigo“The Theology of the Old Testament” no Broadman Bible Commentary[31].

Outro estudioso britânico do Antigo Testamento que trabalho no campo da teologia do Antigo Testamento, mas nunca publicou um livro completo sobre o assunto, é Norman Porteous. Ele foi pastor e professor em St. Andrews e Edimburgo, e diretor do New College de 1964 até sua aposentadoria em 1968. Porteous publicou vários estudos sobre a teologia do Antigo Testamento em diversas revistas teológicas. Alguns foram reimpressos em forma de livro: Living the Mystery. Seus estudos mais importantes são: “Towards a theology of the Old Testament”;[32] “Semantics and Old Testament Theology”;[33] “Old Testament Theology”;[34] “The Old Testament and some Theological Thought Forms”;[35] “The State of Old Testament Studies Today: Old Testament Theology”;[36] “The Present State of Old Testament Theology”;[37]’ “The Theology of the Old Testament”;[38] [39] “Magnolia Dei"·™ e com Ronald E. Clements, “Old Testament Theology”.[40]

Porteous via a teologia do Antigo Testamento como a ciência da religião israelita, baseada no uso das técnicas modernas da arqueologia, das religiões comparadas e da análise histórica e literária. Seu método pode ser tão sistemático como o objeto de estudo permite. Além disso, ela tem uma função normativa e pode, portanto, fazer uso do direito de ser considerada teologia.[41] Depois de tratar de questões preliminares, Porteous esboçou assim sua abordagem no Peake's Commentary·. 1) o conhecimento de Deus; 2) os atos salvíficos de Deus; 3) a aliança; 4) Javé, o Deus da aliança, 5) Israel e as nações; 6) teologia régia; 7) os profetas; 8) as instituições do judaísmo; 9) sabedoria e esperança.

As obras de outros estudiosos britânicos que têm tratado recentemente da teologia do Antigo Testamento (G. A. F. Knight, F. F. Bruce, W. J. Harrelson e Ronald E. Clements) serão vistas na seção 7.





O movimento da teologia bíblica

Robert Dentan chamou o período que começou em 1949 como "a era de ouro" da teologia do Antigo Testamento. Ele dizia que essa era de ouro começou com Otto Baab, The Theology of the Old Testament (1949), Otto Procksch, Theologie des Alien Testaments (1949) e Th. C. Vriezen, An Outline of Old Testament Theology (1949).[42] Estudiosos católicos romanos contribuíram para o campo quando Theology of the Old Testament, de Paul Heinisch, foi publicado (em inglês) em 1950, e Paul van Imschoot, estudioso católico francês, publicou uma obra abrangente, em dois volumes, sobre a teologia do Antigo Testamento em 1954 e 1956.

Uma nova série de monografias, Studies in Biblical Theology, foi iniciada em 1950. Até 1963 tinham sido publicados trinta e sete títulos, doze dos quais sobre o Antigo Testamento.

O que Dentan chamou de “era de ouro” da teologia do Antigo Testamento foi estudado como o “movimento de teologia bíblica” por Brevard Childs (Biblical Theology in Crisis). Childs entendeu que o movimento de teologia bíblica começou perto do fim da Segunda Guerra Mundial. Η. H. Rowley, The Relevance of the Bible (1942) e Rediscovery of the Old Testament (1946), Alan Richardson, A Preface to Bible Study (1943) e Norman Snaith, The Distinctive Ideas of the Old Testament (1944) abriram o caminho na Inglaterra. Nos Estados Unidos, G. Ernest Wright, The Challenge of Israel’s Faith{ 1944), Paul Minear, Eyes of Faith (1946), e B. W. Anderson, Rediscovering the Bible (1951) estiveram na vanguarda do novo movimento.

Novas revistas foram lançadas para dar apoio ao movimento: Theology Today (1944), Interpretation (1947), The Scottish Journal of Theology (1948), além de numerosos artigos sobre a teologia do Antigo Testamento publicados em outras revistas: James Smart, “The Death and Rebirth of Old Testament Theology”;[43] Clarence T. Craig, “Biblical Theology and the Rise of Historicism”;[44] Muriel S. Curtis, “The Relevance of Old Testament Today”;[45] W. A. Irwin, “The Reviving Theology of the Old Testament”;[46] “The Nature and Function of Old Testament Theology”;[47] W. F. Albright, “Return to Biblical Theology”.[48]

Childs acreditava que o movimento de teologia bíblica tinha atingido um consenso em torno de cinco temas principais: 1) a redescoberta da dimensão teológica (o objetivo era penetrar no coração da Bíblia para recuperar sua mensagem e mistério, perdidos pela geração anterior); 2) a unidade de toda a Bíblia; 3) a ideia de que a revelação é histórica; 4) o caráter distinto do pensamento bíblico (hebraico); e 5) a singularidade da fé bíblica diante de outras religiões.

Childs disse que as rachaduras começaram a aparecer no muro do consenso do movimento de teologia bíblica quando um grupo de estudiosos que incluía James Barr, Langdon Gilkey e BertiI Albrektson começou a questionar a revelação, a história e a singularidade da fé israelita. Gerhard von Rad usou um método totalmente novo ao escrever sua teologia do Antigo Testamento, que levantou questões sérias para o consenso anterior. O domínio das idéias de Barth e Brunner declinou mesmo antes da morte deles. Novos interesses e preocupações, questões sociais e políticas desviaram os holofotes da teologia. Childs datou o fim do movimento de teologia bíblica em maio de 1963, com a publicação de Honest to God, de J. A. T. Robinson. Este popularizou as opiniões céticas em relação a Deus e às religiões institucionais, expressas por filósofos e teólogos como Tillich, Bonhoeffer e Bultmann e por alguns cientistas e secularistas modernos.

Childs afimou que o movimento de teologia bíblica acabou, mas a necessidade da teologia bíblica permanece. Ele propôs uma nova forma, começando com o estabelecimento de um contexto apropriado. Transformou todo o cânon da Bíblia no contexto, e pode-se ver imediatamente que, para Childs, os dois Testamentos estão juntos, com pouco espaço para disciplinas separadas de teologia do Antigo Testamento e do Novo.[49] [50] [51]0

James Smart, pastor presbiteriano, professor, escritor e organizador de currículos para igrejas, respondeu a Childs. Segundo Smart, Childs criou um quadro errado do desenvolvimento da interpretação bíblica.*1 Smart fez objeção ao uso do termo “movimento” por Childs, dizendo que ele não é apropriado para o estudo da teologia bíblica. Movimentos vêm e vão. O movimento da “morte de Deus”, o movimento da “cidade secular” ou o movimento da “teologia da libertação” centram-se em tópicos e são “modas” passageiras da teologia. Smart disse que a teologia bíblica não é um movimento, a exemplo do desenvolvimento da crítica literária, histórica e/ou da forma.‘2

Smart argumentou que a teologia bíblica é internacional em sua preocupação. Ele concedeu que Childs estava correto ao falar de crise, mas errado ao localizá-la na teologia bíblica. Smart via a crise em todo o vasto empreendimento da erudição bíblica. Ele acreditava que o problema é hermenêutico. A solução para o problema é reconhecer a natureza dupla das Escrituras, que é histórica e teológica, e a impossibilidade de separar as duas. 




[1] The Humanity of God, 14-15. 


[2] Smart, The Interpretation 0JScripture, 276. 

33 Ibid., 278. 


[3] "Die Zukunft der altestamentlichen Wissenschaft", 84-99. 


33 Veja artigos de Eichrodt e Eissfeldt em Ollenburger, et. a).. The Flowering 0JOld Testament Theology, 3-39. 


[5] Leipzig, 1924. 


[6] Munique, 1898. 


3* Veja Bright, The Authority of the Old Testament, 65. 


[8] Vej» Tanner, The Nazi Christ, 2; Andrew J. Krzesinski, National Cultures, Nazism, and the Church (Bruce Humphries, 1945); D. L. Baker, Two Testaments one Bible (Downers Grove, InterVarsity Press, 1976), 7985־; H. G. Reventlow, Problems of the Old Testament Theology, 28-43. 


[9] Albright, History. Archaeology, and Christian Humanism, 229. 


[10] The achievements of biblical religion, 12-13. 


[11] 1933-1939, editado e traduzido para o inglês em 1961-1967. 


[12] Norman Gottwald, "W. Eichrodt, Theology of the Old Testament", em Contemporary Old Testament theologians, editado por Robert B. Laurin, 25. 


[13] Preface to Old Testament theology, 66. 


[14] Eichrodt, Theology of the Old Testament /, 21. 


[15] Theology of the Old Testament /, 11. 


[16] Theology of the Old Testament I, 13-14. 


[17] Theology of the Old Testament 1, 26. 


[18] Old Testament Theology, 9. 


[19] Ibid, 30. 


[20] Veja Artur Weiser, Glaube und Geschichte im Allen Testament (Gottingen, 1961); "Vom Verstehen des Alten Testaments־, ZAW 61 (1945), 17-30. 


[21] BWANT, 47 (Stuttgart, W. Kohlhammer Verlag, 1929). 


[22] Cf. James L. Crenshaw, Gerhard von Rad, 21. 


[23] Dentan, Preface to Old Testament Theology, 79. 


Atlanta, SBL Dissertation Series 86, 1987. 


Groves, 162163־; veja também Hasel, Basic Issues, 7577־ (no Brasil, Teologia do AT, pela JUERP). 


Record and Revelation, 305. 


56 Cf. Max Polley, "H. Wheeler Robinson and the Problem of Organizing an Old Testament Theology", em The use of the Old Testament in the New, ed. James M. Efird, 157. 


[28] Inspiration and Revelation in the Old Testament, 281-282. 


[29] Ibid., 281. 


[30] Atlanta, John Knox Press. 


[31] Vol. 1, 71-86 (série de comentários publicada no Brasil pela JUERP). 


[32] SJTl (1948). 


[33] Oudtestamentlische Studien 8 (19S0). 


[34] OTMS. ed Η. H. Rowley (1951). 


[35] S/Π (1954). 


[36] The London Quarterly and Holborn Review( 1959). 


66 ET75 (1963). 


[38] Em Peake's Commentary on the Bible (1962). 


[39] Festschr(ft dc von Rad, ed. H. W. Wolff, Probleme biblischer Theologie (1971), 417-427. 


[40] Em The Westminster Dictionary of Christian Theology, eds. A. Richardson e J. Bowden (Philadelphia, Westminster. 1983), 398-403,406-413. 


[41] Veja Porteous, The theology of the Old Testament", em Peake's Commentary on the Bible, 151. 


[42] Editado e traduzido do holandês em 1958. 


[43] 7Λ 23 (1943), 1-11, 125-136. 


1$JBL 62 (1943), 281-294. 


[45] JBR 9 (1943), 81 87־. 


[46] JR 25 (1945), 235-247. 


™JBR 14(1946), 16-21. 


[48] The Christian Century 75 (1958), 13281331־. 


80 Biblical Theology in Crisis, 6. 

81 Smart, The Past, Present and Future of Biblical Theology, 7. 


[50]2Ibid., 11. 

83 Ibid., 22. 


[51] Ibid, 145.