31 de julho de 2016

DEREK KIDNER - ABRÃO SOB VOCAÇÃO E PROMESSA (capítulos 12-20)

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B. A FAMÍLIA ESCOLHIDA (capítulos 12-50)

O grande tema destes capítulos é a semente ou posteridade prome­tida e, em menor medida, a terra prometida, à qual o pequeno grupo se apega tenazmente e, no capítulo final, contempla de longe, na certeza do retorno.

A promessa de um filho domina os capitulos 12 a 20 por sua angustiante demora, enquanto Abrão a põe em risco, ora por falta de fibra, ora por falha na esperança (capítulos 12, 16, 20), sustentando-a, porém, pela fé (capítulos 15,17,18). -

Depois do nascimento de Isaque (cap. 21), o interesse se centraliza na tênue linha de sucessão da promessa. Finalmente, a narrativa se mo­ve em direção à fase posterior aos patriarcas, quando Deus conduz a família ao Egito e revela os princípios dos destinos tribais. Ao aproximar-se o fim do livro, o lugar de Israel entre as nações que serão suas vizinhas no transcorrer de todo o Velho Testamento, e sua vocação e perspectiva singular, já foram estabelecidos com clareza, e o palco se abre para os grandes acontecimentos do Êxodo. 



ABRÃO SOB VOCAÇÃO E PROMESSA (capítulos 12-20)

12:1-9. Abrão atende ao chamado

A história da redenção, como a da criação, inicia-se com Deus falando. Isto, em resumo, diferencia a história de Abrão da de seu pais O chamamento para deixar tudo e seguir encontra seus mais próximos paralelos nos evangelhos (que, em alguns aspectos, estão mais perto do padrão patriarcal do que a Lei estava — cf. G1 3), e o primeiro período da história de Abrão é em parte a do seu gradual desembaraçamento do país de origem, dos parentes e da casa do seu pai, processo que não se completou antes do final do capítulo 13.

O chamamento fora ouvido pela primeira vez em Ur (At 7:2-4),[1] e alguns intérpretes censuram Abrão por não ter rompido de uma vez com o pai e o sobrinho. Mas o relato não o tacha de retardatário como a Ló (19:16), e é razoável pensar que ele estava aguardando paciente­mente o tempo de Deus, até que os laços familiares fossem desfeitos de maneira honrosa. Esperar sem renunciar à visão pode ser uma tarefa pesada (exigida de muitos candidatos ao ministério ou à obra mis­sionária). Pelas vias corretas, as instruções se cumpriram, e a ocasião foi celebrada com uma renovação da promessa (13:14).

1-3. A parte de Abrão se expressa numa ordem só, embora penetrantemente completa. Por outro lado, os repetidos futuros verbais re­velam quanto maior é a parte do Senhor. Ao mesmo tempo, a sua futuridade salienta a fé singela requerida: Abrão deve permutar o conheci­do pelo desconhecido (Hb 11:8), e ver sua recompensa naquilo que ele não viveria para ver (uma grande nação), em algo intangível (o nome) e em algo que ele teria de dar (bênção). Gramaticalmente, a última frase do versículo 3 (cf. 18:18; 28:14) pode ser tomada como passiva (AV, RV, RSVmg, “serão benditas”) ou reflexiva (RSV, “bendir-se-ão” ou “abençoar-se-ão”; isto é, “oxalá sejamos eu/vós abençoados co­mo Abrão...”; mas o Novo Testamento, seguindo a LXX, subentende- a como passiva (At 3:25; G1 3:8); na verdade, a LXX faz também a mesma coisa em 22:18 e 26:4, onde o verbo está numa forma que é qua­se sempre[2] [3] reflexiva.

Ser uma bênção para o mundo era uma visão tida sem regularidade no início (ela desaparece no período entre os patriarcas e os reis, fora um lembrete do papel sacerdotal de Israel em Êx 19:5,6). Mais tarde reapareceu nos salmos e profetas, e talvez mesmo em seu período de maior fraqueza sempre infundiu algum senso de missão a Israel. Contu­do, jamais se tornou um programa de ação combinada até à ascensão.

30 de julho de 2016

JOHN BRIGHT - O período do exílio (587-539)

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EXÍLIO E RESTAURAÇÃO

A destruição de Jerusalém e o exílio subseqüente marcam
a grande linha divisória da história de Israel. De um golpe,
sua existência nacional terminou e, com ela, todas as instituições sobre as quais sua vida de corporação se tinha expressado: nunca mais Israel seria recriado precisamente da
mesma forma. Com o Estado destruído e, como conseqüência
natural, com o culto oficial supresso, chegara ao fim a antiga
comunidade de culto nacional. E Israel se tornara, no momento, um aglomerado de indivíduos arrancados de suas raízes
e vencidos, não mais um povo por nenhuma marca externa.
Porém, a maravilha está em que sua história não terminou,
apesar de tudo. Israel não somente sobreviveu à calamidade,
mas, formando uma nova comunidade das ruínas da antiga,
retomou sua vida como povo. Sua religião, disciplinada e fortalecida, igualmente sobreviveu, encontrando aos poucos a direção que deveria tomar nos séculos futuros. No exílio, e depois
do exílio, nasceu o Judaísmo.

É tarefa imensamente difícil escrever a história de Israel
neste período. Nossas fontes bíblicas são as mais inadequadas.
Sobre o exílio propriamente dito a Bíblia não nos diz virtualmente nada, a não ser o que se pode saber dos escritos proféticos e outros escritos da época.

Com relação ao período pós-exílico, até o final do século
quinto, nessa única fonte histórica é a parte final da obra
do Cronista encontrada em Esdras-Neemias, suplementada pelo
livro apócrifo de 1 Esdras, que traz o texto dos Setenta da
narração do Cronista de Esdras. Mas o texto desses livros
apresenta extremas deslocações; encontramos problemas não
resolvidos de primeira grandeza, juntamente com muitas lacunas
que devem ser preenchidas, tanto quanto possível com informações respigadas de outros livros bíblicos pós-exílicos e
de outras fontes, extrabíblicas.

E, depois de se ter feito tudo isso, ainda permanecem
lacunas abissais e problemas desafiadores.

A. O PERÍODO DO EXÍLIO (587-539)

29 de julho de 2016

GERARD Van GRONINGEN - Messias no Livro de Isaías, 3: o Filho-Servo

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O Messias no Livro de Isaías, 3: o Filho-Servo 

Ao começar o estudo de Isaías 40.1-52.12, qualquer pessoa conhecedora da literatura disponível sobre Isaías 40-55/66 encontra-se novamente diante do problema da autoria. Um dos elementos que mais persistirão em fazer lembrar isto é o fato de comentários completos terem sido escritos sobre os últimos capítulos desse livro. Dividir a obra em duas, três ou mais partes tomou-se, na mente de muitos, a coisa erudita a ser feita. John L. McKenzie escreve que "a distinção entre o Primeiro e o Segundo Isaías é tão amplamente aceita na erudição moderna que não é necessário examinar extensamente o argumento que lhe é contrário".[1] McKenzie escreve na tradição e no espírito de eruditos como Bernhard Duhm,[2] Charles Cutler Torrey,[3] Paul Volz,[4] James Muilenberg,[5] e James D. Smart.[6] As referências de Smart ao Segundo Isaías como um evangelista, pastor, poeta, teólogo profundo e intérprete da história para um povo no exílio, bem como os fenômenos contraditórios dentro da própria segunda parte do livro, como base para a defesa de dois, preferivel­mente três ou mais autores,[7] fazem pouco para convencer o estudante cuida­doso e de mente aberta da profecia una do Isaías único. A afirmação dogmática de McKenzie a respeito da autoria múltipla serve ainda menos para convencer alguém que Isaías não estava profetizando (isto é, predizendo) acontecimentos futuros. Smart rejeita francamente o único meio pelo qual alguém poderia ver a solução das supostas contradições e anacronismos quando diz que não pode aceitar "a hipótese de que Isaías projetou sua mente dois séculos para o futuro e proferiu mensagens dirigidas a uma era futura".[8]

Os fatos que apóiam a unidade de Isaías não precisam ser mencionados aqui.[9] Três comentários, entretanto, devem ser feitos a esta altura. (1) O elo material direto que une os capítulos 39 e 40 não deve ser subestimado. Edward J. Young apresenta muito bem os fatos. O que é registrado no capítulo 39 ocorreu antes do que é contado no capítulo 38; mas a cronologia histórica não é seguida no livro porque o relato do capítulo 39 (a recepção por Ezequias dos enviados da Babilônia e a profecia de Isaías do exílio para

26 de julho de 2016

DEREK KIDNER - Fim e principio: Babel e Canaã (11.1-32)

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FIM E PRINCÍPIO: BABEL E CANAÃ (11:1-32)

11:1-9. Babel.

A história primeva atinge seu clímax infrutífero quando o homem, cônscio das suas novas capacidades, prepara-se para glorificar-se e fortalecer-se mediante um esforço coletivo. Os elementos componentes dò relato, foram sempre uma característica do espírito do mundo. O projeto é tipicamente grandioso. Os homens o descrevem excitadamen­te uns aos outros como se fosse a realização última — o que lembra muito bem as glórias do homem moderno em seus projetos espaciais. Ao mesmo tempo, deixam entrever sua insegurança ao reunir-se em multidão para preservar a sua identidade e gerir os seus bens (4).

A narrativa capta o absurdo e a gravidade simultâneos do fato. Mesmo os materiais são provisórios, como o assinala o versículo 3, mas os construtores são mais fracos ainda. Há ironia no eco do alarido dos homens, “Vinde ... Vinde ...” que encontramos nas palavras de Deus, “Vinde, desçamos...”, e o fim é um anticlímax: “cessaram de ”. A ci­dade semi-construída é um monumento mais que suficiente deste aspec­to do homem.

25 de julho de 2016

JOHN BRIGHT - Os profetas dos últimos dias de Judá

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OS PROFETAS DOS ÚLTIMOS DIAS DE JUDÁ

1 . Emergência teológica

No próximo capítulo, voltaremos a considerar a natureza da crise, tanto física quanto espiritual, na qual a queda de Jerusalém lançou os últimos restos da nação israelita e a
maneira como ela sobreviveu a esta crise. Contudo, deve-se
notar aqui que a sobrevivência só foi possível porque os
profetas que se dirigiam à nação na hora da sua mais cruel
agonia, já antes da tragédia haviam localizado os problemas
teológicos nela envolvidos e lhes dado uma resposta com base
na religião ancestral de Israel. Uma história das últimas horas
de Judá não seria completa sem a menção à obra destes profetas
e seu significado.

a. A teologia nacional em crise. — Qualquer pessoa que
tenha compreendido a natureza da teologia nacional de Judá,
como ela era popularmente entendida, verá que a nação estava
totalmente despreparada para enfrentar a emergência iminente.
Esta teologia, como dissemos antes, centralizava-se na afirmação da escolha de Sião por Iahweh como a sua sede e em suas

24 de julho de 2016

GERARD Van GRONINGEN - O Messias no Livro de Isaías : o Filho que Governa

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O Messias no Livro de Isaías, 2: o Filho que Governa 

O s títulos dados por vários autores aos temas do governante prometido (Is. 9.2-7 [TM 9.1-6]) e do renovo de Jessé (11.1-16) refletem uma compreensão clara e definida de seu caráter messiânico; por exemplo: o Messias-Rei na profecia de Isaías,[1] a realeza messiânica,[2] [3] o Príncipe da Paz e o reino davídico. Essas passagens, realmente, apresentam e revelação contínua por parte de Yahwéh do mediador messiânico, representado e tipificado no tempo de Isaías pela casa de Davi. Tanto o ponto de vista mais estrito do conceito messiânico, isto é, o que se refere à pessoa régia, quanto o ponto de vista mais amplo, referente à obra dessa pessoa régia e seus resultados, estão aí elaborados. 

O Governo do Rei Prometido (Is 9.2-7) 

Contexto Histórico 

O contexto histórico de Isaías 9 e 11 é o mesmo de Isaías 7. As ameaças e ataques da Síria e de Israel, o temor e a incerteza de Acaz e sua intenção de buscar ajuda militar de Assíria são os principais fatores.

23 de julho de 2016

DEREK KIDNER - Renovação e Repovoação (8.15-10.32)

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RENOVAÇÃO E REPOVOAÇÃO (8:15-10:32)

8:15-19. A nova comissão.

Ainda é a Noé que Deus se dirige. Todo o esquema da salvação centraliza-se nele. Até o capítulo 9, os seus filhos são beneficiários, mas não participantes ativos. Quase como um segundo Adão (9:1), ele a­vança por um mundo virgem, purificado pelo julgamento, e o espetacu­lar livramento na arca é visto como simples preliminar da salvação propriamente dita, que é uma nova criação. O Novo Testamento vê o dilúvio e o rito do batismo como expressões gêmeas desta realidade (1 Pe 3:18-22), a saber, da provisão de um caminho que passa através da morte para a vida.

8:20-22 O sacrifício aceito.

20. Ml 4:2 invoca a pura alegria física da libertação após o confinamento, mas o primeiro pensamento de Noé volta-se para Deus. Home­nagem, dedicação e expiação expressam-se todas nas ofertas queimadas (AV), ou “holocaustos” (AA): a nova terra é para ser de Deus, se Ele quiser tê-la.

20 de julho de 2016

JOHN BRIGHT - O império neobabilônico e os últimos dias de Judá

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B. O IMPÉRIO NEOBABILÔNICO E OS ÚLTIMOS DIAS DE JUDÁ

1. Da morte de Josias à primeira deportação (609-597)

Embora os últimos anos de Josias testemunhassem a destruição final da Assíria, este feliz acontecimento não devia
trazer a paz a Judá, nem aos outros povos da Palestina e da
Síria. No momento mesmo em que Naum se alegrava com a
queda do tirano, potências rivais se estavam juntando como aves de rapina para dividir o cadáver. Vencesse quem vencesse, Judá sairia perdendo, porque o dia do pequenino Estado
independente do oeste da Ásia tinha, de há muito, chegado.
De fato, Judá perdeu — primeiro, sua independência; depois,
sua vida. A história destes trágicos dias foi brilhantemente esclarecida por textos recentemente publicados [1], e deve, de certo modo, interessar-nos.

a. A morte de Josias e o fim da independência. — Já
descrevemos como os babilônios e os medos arrasaram a Assíria,
tomando e destruindo Nínive em 612 e expulsando o governo
refugiado assírio de Haran em 610. Como os medos, no momento, estavam lutando para consolidar suas possessões no
leste e no norte das montanhas, o controle da parte oeste do
defunto império da Assíria ficou entre a Babilônia e o Egito,
o qual, esperando entre outras coisas ganhar carta branca na
Palestina e na Síria, fora aliado da Assíria. Entre os dois,
Judá foi arrastado à ruína.

17 de julho de 2016

GERARD Van GRONINGEN - O Messias no Livro de Isaías 1: O Filho da Virgem

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O Messias no Livro de Isaías, 1: O Filho da Virgem

Os seis primeiros capítulos de Isaías constituem uma introdução incisiva para todo o livro.[1] O primeiro versículo afirma: Isaías, filho de Amoz, recebeu uma revelação de Yahwéh por meio de uma visão. O substantivo hãzôn (visão) e o verbo hãzâ (ele viu por visão) referem-se a um dos principais meios que Yahwéh emprega para informar seus servos, os profetas, o que eles devem proclamar.[2] Nesta introdução apresentaremos os principais subtemas de toda a profecia (ver quadro 8).

Por meio de uma sinopse, o quadro pode ser explicado do seguinte modo: o tema da profecia de Isaías é "a Salvação é de Yahwéh". Isaías, cujo nome tem o mesmo significado, foi chamado a proclamar esse tema. Ele o faz relembran­do ao povo do pacto seu fiel, soberano e santo Senhor, guardador do pacto. Isaías, entretanto, devia proclamar ao povo de Deus que Yahwéh tinha uma acusação contra ele pela quebra do pacto ratificado. O resultado desse proce­dimento é que Yahwéh achando culpado o povo, iria trazer julgamento sobre ele. A maldição do pacto (Lv 26.14-45; Dt 29.19-29) seria aplicada. O próprio Deus faria isso, mas através das nações, algumas das nações que o povo do pacto mais temia no tempo em que Isaías profetizou. Haveria, entretanto, esperança para o povo do pacto, se este retornasse ao modo de vida pactual. Yahwéh, entretanto, não retiraria o julgamento pelos pecados cometidos.

Enquanto seu julgamento estivesse sendo executado, suas promessas de um agente messiânico permaneceriam de pé e estariam sendo desdobradas; esse mediador do pacto cumpriria os propósitos de Yahwéh para o seu povo. Quando esses propósitos fossem realizados, aquelas nações, os próprios ins­trumentos do julgamento divino, seriam incluídas no povo do pacto do Senhor.

16 de julho de 2016

DEREK KIDNER - O mundo sob julgamento (6.9-8.14)


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III. O MUNDO SOB JULGAMENTO (6:9-8:14)

A frase Estas são as gerações (AV, trad. literal), abre uma nova seção do livro (c/. 2:4;5:l), pela qual o apetite do leitor foi aguçado pela súbita virada da narrativa no v. 8. Aí está a transição do antigo para o novo mundo, num esquema que o Novo Testamento acha significativo para todos os tempos, tanto “agora” (1 Pe 3:20,21) como no fim (Lc 17:26; 2 Pe 3:6,7). O pecado, agora em plena propagação, só tem de produzir morte, e o primeiro exercício de julgamento em escala total demonstra que com Deus a verdade de uma situação prevalece, quer com maiorias, quer com minorias. Se “poucos” foram salvos — ape­nas oito almas (1 Pe 3:20), sete deles o deveram a unicamente um (Hb 11:7), e esta minoria herda a nova terra.

6:9-12. Um homem na companhia de Deus.

9. Num mundo corrompido, Noé emerge como o melhor elemento de uma geração má, e não apenas isto, mas também como um homem de Deus notavelmente completo. Dos dois adjetivos, reto (RV, RSV) é primariamente para com o homem, perfeito (AV, RV; isto é, sincero, íntegro, ver AA)' é para com Deus. A frase em suas gerações (AV) não se relaciona com a sua árvore genealógica (é uma palavra diferente da usada na expressão inicial); poder-se-ia traduzir (“o único” entre os seus contemporâneos”) (ver AA), pertencendo possivelmente às pala­vras que se seguem, apesar da pontuação.

A frase final é comparável somente ao elogio a Enoque (5:24), que a ecoa com uma ênfase a mais: “Era com Deus que Noé andava”.

15 de julho de 2016

JOHN BRIGHT - O fim do domínio Assírio: Judá readquire a independência

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O último século

Entre a morte de Ezequias e a conquista final de Jerusalém pelos babilónios transcorreu exatamente um século (687־
-587). Raramente uma nação experimentou tantas e tão repentinas mudanças de sorte em tempo relativamente tão curto.
Na primeira metade desse período, Judá era um Estado vassalo
da Assíria. Depois, em rápida sucessão, atravessou períodos
de independência e sujeição. Primeiramente foi conquistado
pelo Egito, e depois pela Babilônia, tendo sido destruído numa
rebelião inútil contra esta última. Estas fases seguiram-se tão
rapidamente que foi possível para um só homem presenciá-las a
todas, como aconteceu com Jeremias.

Nossas melhores fontes históricas vivas — novamente o
Livro dos Reis (2Rs 21 a 25), complementado pelo Cronista
(2Cr 33 a 36) — são bastante insuficientes e apresentam
muitas lacunas. Informações adicionais consideráveis nos são
fornecidas pelos livros dos Profetas que estiveram em atividade
durante aquele período especialmente Jeremias, mas também
Ezequiel, Sofonias, Naum e Habacuc. Além disso, fontes cuneiformes, particularmente a crônica babilónica que brilhantemente ilumina a última parte do período, nos possibilitam traçar
um quadro completo, que nunca poderíamos conseguir apenas
com as fontes bíblicas.

A. O FIM DO DOMÍNIO ASSÍRIO: JUDÁ READQUIRE A INDEPENDÊNCIA

1. Judá em meados do século sétimo

14 de julho de 2016

GERARD Van GRONINGEN - A Mensagem Messiânica dos Profetas para Judá no Oitavo Século

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A Mensagem Messiânica dos Profetas para Judá no Oitavo Século 

O s profetas Miquéias e Isaías exerceram sua obra profética na segunda metade do oitavo século antes de Cristo. Considera-se que Miquéias profetizou somente a Judá nos anos 735-698 a.C. Isaías teria começado seu ministério profético em 740/739 a.C. A tradição nos diz que ele teria sido martirizado durante os primeiros anos do reinado de Manassés, que subiu ao trono de Judá em 687 a.C.[1] Durante seus primeiros anos de ministério, esses dois profetas de Judá foram contemporâneos de Amós e Oséias, que profetizavam para Israel. Mas, segundo dissemos antes, esses profetas de Israel estavam conscientes da situação moral, religiosa e política de Judá. Eles incluíram mensagens para Judá enquanto falavam a Israel. Pode ser dito que Miquéias e Isaías receberam a mensagem de Yahwéh para todo Israel (cf., p. ex., Mq 1.5,6; 3.1); Como, porém, a monarquia estava dividida em duas nações e Israel havia desaparecido da cena política enquanto Judá ainda era uma nação independente, eles falaram e aplicaram a palavra de Yahwéh especialmere a Judá. 

O estudo das passagens de Miquéias e Isaías que são consideradas messiâ­nicas tomará claro que o que Amós e Oséias tinham proclamado a respeito do Messias e sua obra, Miquéias e Isaías repetiram em sua maneira específica e singular. Eles também diligenciaram em anunciar quem o Messias era, seu caráter, sua tarefa e o fruto de sua presença e obra. Não introduziram aspectos totalmente novos; antes, repetiram e desenvolveram o que havia sido anterior­mente revelado.[2]

O Contexto Histórico de Miquéias e Isaías 

12 de julho de 2016

DEREK KIDNER - O homem sob o pecado e a morte (4.1-6.8)

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III. O HOMEM SOB O PECADO E A MORTE (4:1-6:8)

4:1-15. O assassinato de Abel.

Se, por trás da serpente, era perceptível o diabo no capítulo 3, a carne e o mundo entram em consideração no presente capítulo (ver adiante coment. dos vs. 16-24). O pecado é revelado com os seus ciclos de evolução como em Tg 1:15, e no v. 7 é personificado quase que à ma­neira paulina (c/. Rm 7:8). Muitos pormenores acentuam a gravidade do crime de Caim e, portanto, da queda. O contexto é culto, a vítima, um irmão. E enquanto que Eva fora persuadida a pecar, Caim não acei­ta ser dissuadido de seu pecado nem sequer por Deus; também não irá confessá-lo, nem aceitar o castigo.

1. A palavra conheceu (AV), neste sentido especial, mostra muito bem o nível plenamente pessoal da verdadeira união sexual, embora possa perder completamente este elevado conteúdo (cf. 19:5, AV).

Caim tem algo do som de qãnâ, “adquirir”. Tais comentários so­bre nomes são geralmente jogos de palavras, e não etimologias, reves­tindo um nome padrão de um sentido particular. Assim, por ex., em 17:17,19 um nome existente, Isaque (“ria-se [Deus]”) foi escolhido pa­ra rememorar certo riso e a promessa que o provocou.

A expressão com o auxílio do (RV, RSV, AA) é literalmente “com”, apenas. E embora esta palavra hebraica permita outras inter­pretações, a de RV, RSV, AA é a mais simples. Cf. 1 Sm 14:45 (outra palavra para “com”).

A exclamação de fé, expressa por Eva neste versículo como no v. 25, levanta a situação acima do puramente natural, para o seu verdadei­ro nível (como a fé sempre faz: 1 Tm 4:45), quer esteja dando um toque no oráculo de 3:15 ou não.

11 de julho de 2016

John Bright - O problama das campanhas de Senaqueribe na Palestina

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O PROBLEMA DAS CAMPANHAS DE SENAQUERIB NA PALESTINA

A narração dos feitos de Senaquerib contra Ezequias em
2Rs 18,13 a 19,37 (Is 36ss) [1] apresenta um problema difícil.
Ela contém o relato de uma ou duas campanhas? Esta pergunta foi assunto de debate por mais de um século sem que se
tenha chegado a nenhuma conclusão; e é provável que ainda
o seja, por falta da descoberta de prova recente extrabíblica —
isto é, dos anais oficiais de Senaquerib referentes à última
década de seu reinado aproximadamente (se é que tal prova
chegou a existir). Pode-se, portanto, assumir uma posição, mas
com a maior reserva[2]. E, embora a maioria das opiniões tenha no passado se inclinado para a opinião de que foi apenas
uma campanha[3], a posição que assumimos no texto baseia-se
na crença de que a evidência se satisfaz melhor supondo-se
que foram duas (uma em 701 e outra depois). Portanto,
algumas palavras de explicação vêm muito a propósito aqui.

As duas narrações bíblicas são, com pequenas diferenças
verbais, idênticas, só que a de 2Rs 18,14-16 está faltando em
Isaías. Esses versículos dizem-nos que, quando seu território
foi assolado pelos assírios, Ezequias rendeu-se, submeteu-se
a condições e pagou o tributo exigido. Em seguida, segue-se a
narração da exigência da rendição incondicional feita por Senaquerib, da recusa de Ezequias com o estímulo de Isaías e da
admirável libertação da cidade.

9 de julho de 2016

Gerard Van Groningen - A Mensagem Messiânica dos Profetas para Israel

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A Mensagem Messiânica dos Profetas para Israel 

Antes que a nação de Israel, as dez tribos setentrionais, fosse levada ao exílio pelos assírios (722 a.C.), Yahwéh enviou dois profetas para advertir seu povo e chamá-lo ao arrependimento e à obediência. Um desses profetas, Amós, veio de Judá; seu sucessor, Oséias, era de Israel mesmo.[1] Ambos falaram do futuro julgamento sobre aqueles que quebraram e desprezaram o pacto que Yahwéh havia feito com eles. Cada um fez isto de maneira peculiar, dando expressão às próprias características dominantes de sua personalidade. Mas foi a palavra de Yahwéh que eles proclamaram. Embora a mensagem do julgamento de Yahwéh ocupe a maior parte do tempo e da mensagem de cada um desses profetas, ambos proclamaram também uma vívida mensagem messiânica de esperança e restauração. 

Muitos eruditos pensam que Amós precedeu Oséias em umas poucas décadas, embora a maioria admita que eles podem ter sido contemporâneos, pelo menos por algum tempo. Amós surgiu em cena no norte por um curto período; Oséias parece que pregou durante sessenta anos.[2] Acredita-se que ele tenha testemunhado o exílio de Israel. 

6 de julho de 2016

DEREK KIDNER - Prova e queda do homem (2.4-3.24)

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II. PROVA E QUEDA DO HOMEM (2:4-3:24)

Agora o homem é o pivô da narrativa, como no capítulo 1 fora o clímax. Tudo que se diz é dito em função dele. Até mesmo se mostra que a desolação primeva o esperava (2:5), e a narrativa se exterioriza, partindo do homem para o seu meio ambiente (jardim, árvores, rio, animais e aves) em ordem lógica anteposta à ordem cronológica, para revelar o mundo como se tencionava que nós o víssemos: um lugar ex­pressamente preparado para nosso deleite e disciplina. É um engano di­zer que se trata de uma segunda narrativa da criação, pois ela apressa a localização da cena, passando diretamente do mundo em geral para “um jardim... da banda do Oriente”; tudo o que vem depois é repre­sentado neste estreito palco.

Através da seção toda, até o final do capítulo 3, o raro, quase úni­co, duplo nome o Senhor Deus (Yahweh Elohim) acrescenta a sua própria impressividade à narrativa e estabelece a unidade dos dois ter­mos,[1] [2] o nome pessoal e o título, que dominarão o Velho Testamento.

2:4-25. A felicidade do homem.

4-6. Prólogo. O refrão: “Estas são as gerações” (4; AV, mais de acordo com o original, apud Tradutor) divide Gênesis em seções em 2:4; 5:1; 6:9; 10:1; 11:10,27; 25:12,19; 36:1,9; 37:2. A palavra gerações (tôledôt) significa propriamente descendência, e aqui se refere a “todo o seu exército” (versículo 1). Mas pode ter sentido mais amplo de história (da linhagem da família), seja em relação ao passado (como nos regis­tros genealógicos de 1 Cr 7:4,9 etc.), seja com relação ao futuro (como em Rt 4:18), conforme o contexto.

5 de julho de 2016

John Bright - Os profetas do fim do século oitavo em Judá

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OS PROFETAS DO FIM DO SÉCULO OITAVO EM JUDÁ

1. A emergência nacional e a mensagem profética

Não nos podemos afastar da história de Judá no final
do século oitavo sem uma menção qualquer aos profetas que
exerceram então o seu ministério, referindo-se incansavelmente
à emergência nacional. Proceder assim seria deixar a história
incompleta, pois tais profetas foram certamente de maior significação histórica do que alguns reis de Judá — ou da Assíria,
no caso vertente. Embora houvesse naturalmente outros, dois
nos são conhecidos. Isaías e Miquéias.

Ambos iniciaram suas pregações quando as sombras da
Assíria começavam a projetar-se sobre a terra e o Estado do
norte caminhava para seu túmulo, e ambos viveram até os
trágicos anos que se seguiram — Isaías durante todo o período
a que se refere este capítulo.

A crise espiritual de Judá. — Para apreciar estes profetas, deve-se entender a crise que a nação enfrentava. Não se tratava apenas da ameaça externa, física, da agressão assíria,
já descrita, mas de uma emergência espiritual, que coincidia
com ela e ameaçava o caráter e a religião nacionais em seus
próprios fundamentos. Esta emergência originava-se, em parte,
da mesma enfermidade interna que destruíra o Israel do norte
e que também estava presente em Judá, embora em escala
reduzida. Isto já notamos acima.

3 de julho de 2016

Gerard Van Groningen - A Mensagem Messiânica dos Profetas Para as Nações

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A Mensagem Messiânica dos Profetas Para as Nações 

Quando começamos o estudo das profecias incluídas na última parte do Velho Testamento, encontramos volumosos escritos cobrindo uma vasta gama de assuntos. Esse fato, bem como as variadas circunstâncias em que atuaram esses pregadores do Velho Testamento, as diferenças em ênfase e estilo literá­rio, têm dado ocasião aos eruditos de produzir uma quantidade prodigiosa de material escrito sobre os profetas. É preciso dizer que nenhum estudante ou escritor pode ler e analisar cuidadosamente tudo o que tem sido escrito, ou pelos próprios profetas ou por seus estudantes. Alguns sumários úteis têm sido publicados desde 1950.[1] Nenhum desses, entretanto, cobre o campo inteira­mente, ou de modo adequado. O assunto da profecia messiânica, dos temas principais entre os profetas, dificilmente é mencionado. Isso pode ser devido ao fato de que têm sido escritos alguns ensaios que se concentram somente na mensagem messiânica dos profetas. 

Em vista do que acabamos de dizer, os estudiosos são forçados a ser seletivos, pelo menos até certo ponto, quando buscam fazer exegese das profecias messiânicas e derivar delas uma teologia messiânica e escatológica. Além disso, algumas passagens consideradas messiânicas por um estudioso podem não ser assim consideradas por outros. Alguns escritores têm tratado sucintamente com passagens mais importantes. Neste nosso estudo vamos procurar tratar plena e propriamente com todas as passagens messiânicas — até as que não são claramente messiânicas. 

2 de julho de 2016

DEREK KIDNER - História da Criação (1.1-2.3)

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I. HISTÓRIA DA CRIAÇÃO (l:l-2:3)

1:1,2. Prólogo.

1. Não é por acidente que o termo Deus exerce a função de sujeito da primeira sentença da Bíblia, pois esta palavra domina o capítulo in­teiro e salta à vista em cada ponto das primeiras páginas. É empregada umas 35 vezes em outros tantos versículos da narrativa. A passagem, na verdade o Livro, fala dele, antes de mais nada. Lê-la com qualquer ou­tro interesse primário (o que é bem possível) é falsear a sua leitura.

A expressão inicial, No princípio, é mais que simples indicação de tempo. As variações sobre este tema em Is 40 mostram que o princípio está impregnado do fim, e que o processo todo é presente para Deus, que é o Primeiro e o Último (por ex., Is 46:10; 48:12). Pv 8:22s. revela algo do aspecto concernente a Deus deste princípio da criação. João 1:1-3 é mais explícito. E o Novo Testamento em diversas partes vai às vezes além dele (ex., Jo 17:5,24), adentrando-se na eternidade.

Gramaticalmente, esta frase poderia ser traduzida como uma sen­tença introdutória a completar-se no versículo 3, depois de um pa­rentético versículo 2: “Quando Deus começou a criar... (a terra era sem forma...), disse Deus: Haja luz...”. Isto não significaria que a terra não-desenvolvida não foi feita por Deus. Significaria apenas que a criação, em seu sentido pleno, ainda tinha de ir longe. Mas a tradução familiar: “No princípio criou Deus...”, também é gramaticalmente correta, tem o apoio de todas as versões antigas, e afirma inequivoca­mente a verdade exposta alhures (por ex., em Hb 11:3) de que, enquan­to Deus não falou, não existia nada. Pode-se determinar melhor o sen­tido de criou (bãrã’; cf. 21,27; 2:3,4) com base no Velho Testamento como um todo (incluindo-se este capítulo), onde se vê que seu sujeito é invariavelmente Deus, o seu produto pode consistir de coisas (ex., Is 40:26) ou situações (Is 45:7,8, RSV.AA), os verbos que lhe são associa­dos são principalmente “fazer” e “formar” (1:26,27; 2:7), e seu senti­do preciso varia com o seu contexto, podendo salientar ou o momento inicial de trazer algo à existência (Is 48:3,7: “de repente”, “agora”) ou a paciente obra de aperfeiçoamento de alguma coisa (2:1-4; cf. Is 65:18). Nesta declaração inicial é possível, ou ver a palavra em sua dimensão máxima, caso em que o versículo resume a passagem toda, ou (como prefiro) tomá-la como afirmando o início do processo.

1 de julho de 2016

John Bright - A luta pela independência de Ezequias (715-687)

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1. A política de Ezequias e sua significação

Durante o reino de Acaz, Judá permaneceu submissa à
Assíria. Mas, embora tal situação parecesse não ter alternativa,
não podemos deixar de pensar que o povo patriota a sentia
amargamente. O filho de Acaz e seu sucessor, Ezequias, parece
que alimentava tal sentimento, já que ele modificou totalmente
a política de seu pai em todos os pontos. De início com certa
cautela, depois com ousadia, ele procurou livrar-se da Assíria.
Embora suas tentativas parecessem inúteis — de fato, elas
estavam de antemão condenadas ao fracasso — elas eram quase inevitáveis.

a. O fundamento da política de Ezequias: fatores internos.

O simples patriotismo, o natural desejo de independência
de um povo altivo certamente desempenhou um papel importante na formação da política de Ezequias. Entretanto, não
é suficiente para explicá-la. Como sempre em Israel, os fatores
religiosos estavam presentes. A política de Acaz tinha produzido uma situação intolerável para cs iahwehistas leais. Não é
provável que Isaías e Miquéias fossem as únicas pessoas que
se insurgiram contra os abusos sociais tolerados pelo regime,
ainda mais que as tendências paganizantes, embora seguidas por
muitos, sem dúvida despertavam uma oposição mais forte do
que as práticas semelhantes haviam despertado no norte de
Israel.