31 de agosto de 2012

O Cânon Hebraico do Antigo Testamento

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O cânon hebraico do Antigo Testamento

Os livros da Bíblia - Antigo e Novo Testamento

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30 de agosto de 2012

John Bright - A ocupação israelita de Canaã: sumário e reconstrução


Ao tentarmos juntar a evidência num quadro coerente é prudente evitar uma reconstrução demasiado precisa dos acontecimentos. Devemos portanto contentar-nos de falar em termos gerais certos de que tudo que se diga sobre o assunto permanecerá de certo modo hipotético e sujeito a correção à luz de informações posteriores[1] .

a.  A Palestina antes da conquista. — Em vista da evidência aduzida acima, para não falarmos da tradição bíblica, a ocupação israelita da Palestina não pode ser considerada como uma mera infiltração pacífica de clãs nômades que gradualmente se estabeleceram em áreas desocupadas e somente depois, se foi o caso, entraram em choque ocasional com os seus vizinhos canaanitas. Ao mesmo tempo a própria evidência da Bíblia, assim como as probabilidades da questão, impede-nos de supor que os israelitas irromperam repentinamente do deserto às dezenas de milhares numa avalanche poderosa, deixando, ao cabo de poucas campanhas curtas, a terra em ruínas fumegantes. Como dissemos, o grupo que saiu do Egito não pode ter sido muito grande e embora este número tenha aumentado consideravelmente e já estivesse bastante

29 de agosto de 2012

Norman Geisler - As línguas e os materiais da Bíblia


Até este momento nosso estudo tem-se centrado ao redor dos dois primeiros elos da cadeia vinda de Deus para nós. O primeiro elo é a inspiração, que envolvia a outorga e o registro da revelação de Deus para o homem, mediante os profetas. O segundo elo é a canonização, que envolvia o reconhecimento e a compilação dos registros proféticos pelo povo de Deus. A fim de compartilhar esses registros com os novos crentes e com as gerações futuras, era necessário que se copiassem, traduzissem, recopiassem e retraduzissem esses livros. Esse processo constitui o terceiro elo da corrente de comunicação, conhecido como transmissão da Bíblia.
Visto que a Bíblia vem passando por quase dois mil anos de transmissão (não computando o Antigo Testamento), é razoável que se pergunte se a Bíblia em português, de que dispomos hoje, no final do século xx, constitui reprodução exata dos textos hebraicos e gregos. Em suma, até que ponto a Bíblia sofreu danos no processo de transmissão? A fim de responder a essa pergunta e tratar bem desse assunto, será necessário que examinemos a ciência da crítica textual (v. caps. 14 e 15), que compreende as línguas e os materiais da Bíblia, bem como as evidências documentais dos próprios manuscritos (v. caps. 12 e 13).

27 de agosto de 2012

John Bright - A complexidade das origens de Israel


Embora a evidência que acabamos de aduzir seja mais que suficiente para mostrar que a narrativa bíblica, ao menos nos seus pontos essenciais, se radica na história, não devemos contudo simplificar demasiado as coisas. Poder-se-ia ficar com a impressão, lendo a Bíblia, de que Israel surgiu de um simples processo genealógico: doze filhos de Jacó com suas famílias, setenta almas ao todo (Gn 46,27), emigraram para o Egito. Lá multiplicaram-se e se tornaram numerosíssimos.

Depois, saíram todos do Egito, peregrinaram, todos unidos num só corpo, pelo deserto, e chegaram à Palestina. Em lá chegando, conquistaram-na. Mas não foi tudo assim tão simples. A própria Bíblia nos conta com evidência que o povo de Israel foi formado por um processo complexo e que encontraram na sua formação elementos de origens as mais diversas.

25 de agosto de 2012

Mapas do Antigo Testamento (Parte 5)

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A arca é trazida para Jerusalém

A viagem de Daniel para a Babilônia

Davi foge de Saul

Divisão do Reino: Judá e Israel

Elias e a viúva de Serepta

Jonas foge do Senhor

Locais chave no livro de 1 Reis

Locais chave no livro de 2 Crônicas

Locais chave no livro de 2 Reis

Locais chave no livro de Provérbios

Locais chave no livro de Salmos

O cerco de Samaria termina

Os Assírios capturam Israel

Um redomoinho levou Elias para o céu

Fonte: Bíblia GLOW

24 de agosto de 2012

John Bright - A conquista da Palestina à luz da evidência


Quando chegamos às narrativas da conquista, a evidência externa é considerável e importante. Podemos dispor delas à vontade. Embora não seja sem ambiguidade podemos dizer que certamente a conquista que houve deve ter sido uma conquista violenta.

a. A tradição bíblica. — Não somos nós, naturalmente, que vamos minimizar os problemas envolvidos, problemas que estão em parte na própria Bíblia. De acordo com a narração principal (Js cc. 1 a 12) a conquista representou um esforço concentrado de todo o Israel e foi repentina, sangrenta e completa. Depois da maravilhosa travessia do Jordão e o desmoronamento dos muros de Jericó, três campanhas-relâmpagos através do centro da região (cc. 7 a 9) dirigindo-se para o sul (c. 10) e para o norte (c. 11), levou toda a Palestina a submeter-se ao controle israelita (c. 11,16-23). Tendo sido os habitantes massacrados, a terra foi em seguida dividida entre as tribos (cc. 13 a 21). Mas juntamente com esta narração a Bíblia apresenta outro quadro da ocupação da Palestina que mostra com evidência ter ela sido um processo longo, resultado dos esforços dos clãs individuais e parcialmente, completos.

23 de agosto de 2012

John Bright - A peregrinação através do deserto à luz da evidência


Não podemos empreender a reconstrução dos detalhes da peregrinação de Israel no deserto, primeiramente porque os acontecimentos reais eram sem dúvida, muito mais complexos do que indica a narrativa bíblica, e porque quase nenhum dos lugares mencionados podem ser identificado com certeza absoluta. Mas foi neste período que Israel recebeu a sua religião característica, que se tornou um povo. Disto, não há a menor dúvida.

a. A jornada para o Sinai. — De acordo com a Bíblia, esta jornada se realizou em direção ao Monte Sinai (ou Horeb, como ele é também chamado) para onde Israel se dirigiu ao deixar o Egito. Infelizmente, a localização do Sinai é incerta.

Sua localização tradicional é em Jebel Musã, na extremidade sul da Península do Sinai. Alguns especialistas contudo, crendo que a linguagem do Êxodo (Ex 19,16-19) sugere uma erupção vulcânica, preferem a localização leste do golfo de Acabá, no noroeste da Arábia (Madian), onde se encontram vulcões extintos. Mas não somente as narrativas não dão a impressão de que se pensava que o Sinai estivesse a tal distanciado Egito; Ex 19,16,19, poderia igualmente sugerir uma violenta tempestade nas montanhas.

22 de agosto de 2012

John Bright - Escravidão do Egito e Êxodo à luz da evidência


Nas narrativas dos êxodos e na conquista da terra deparamos com um problema que é igual na sua essência — embora o hiato de tempo entre o acontecimento e a narração escrita seja menor — ao oferecido pelas tradições patriarcais. Devemos portanto sem repetir o que já foi dito seguir o método adotado no capítulo precedente. Examinaremos a tradição bíblica à luz de tal evidência, sempre que nos for possível e depois tiraremos conclusões que nos parecerem fidedignas. Devemos também ter em mente que não possuímos nenhum meio de verificar os pormenores da narrativa bíblica, mas embora possamos estar totalmente certos de que os acontecimentos reais foram muito mais complexos do que pode sugerir uma leitura casual da Bíblia, podemos dizer o bastante para justificar a asserção de que o seu relato se fundamenta em acontecimentos históricos.

1.Escravidão do Egito e Êxodo à luz da evidência

Realmente não pode haver a menor dúvida de que os antepassados de Israel foram escravos no Egito e de lá escaparam de maneira incomum. Quase ninguém hoje duvida disto.

21 de agosto de 2012

John Bright - Canaã no século treze a.C.


Nossa história nos levou ao início do século doze, ocasião em que, podemos supor, Israel já estava estabelecido na Palestina. Entretanto, é conveniente, antes de procedermos a uma apreciação da relação bíblica, lançar primeiro uma olhada em Canaã no estado em que se encontrava antes de ser ocupada por Israel.

a.  A população de Canaã. — A Bíblia se refere normalmente a uma população pré-israelita da Palestina integrada por canaanitas ou amoritas. Embora estes termos não possam propriamente ser usados um pelo outro, é difícil traçar uma distinção exata entre eles como a Bíblia cs emprega. Qualquer que possa ter sido a derivação do nome[1]  nos dias do Império egípcio, Canaã era o nome oficial de urna província ou distrito que abrangia o oeste da Palestina (mas não a Transjordânia), a maior parte da Fenícia e o sul da Síria[2] . “Canaanita” seria pois uma designação de uma população predominantemente semítica do noroeste desta província —

20 de agosto de 2012

John Bright - A Ásia Ocidental na última Idade do Bronze: O Império Egípcio


Embora a maioria dos componentes de Israel já estivesse em cena desde a primeira metade do segundo milênio, os começos do povo de Israel vieram depois. Neste ponto concordam a evidência externa e a Bíblia. A Bíblia nos diz como os filhos de Jacó, tendo descido para o Egito e lá permanecido por um longo período de tempo, foram depois tirados da região por Moisés e conduzidos ao Sinai, onde receberam aquela aliança e aquela lei que fizeram deles um povo especial. Posteriormente, e depois de mais algumas peregrinações, eles entraram na Palestina e se apoderaram da terra. Estas histórias são conhecidas de todos e as podemos ler no livro do Êxodo até o livro de Josué. Embora haja alguns problemas de cronologia, a evidência que aduziremos abaixo torna claro que o término do processo de que tratam estas histórias remonta ao fim do século treze. Após esse tempo, vamos encontrar Israel estabelecido na terra que será sua nos séculos futuros.

Porém, não é fácil descrever como Israel surgiu. E isso sobretudo porque as tradições bíblicas, de onde deriva a maior parte, ou quase a totalidade de nossas informações, como as histórias dos patriarcas, são difíceis de avaliar. Muitos as olham com o mais profundo ceticismo. Ignorar o problema com uma simples e mera repetição da narrativa bíblica, ou propor reconstruções

19 de agosto de 2012

Norman Geisler - As características da canonicidade


Que livros fazem parte da Bíblia? Que diremos a respeito dos chamados livros ausentes? Como foi que a Bíblia veio a ser composta de 66 livros? Nos próximos capítulos trataremos de responder a essas perguntas. Esse assunto intitula-se canonicidade. Trata-se do segundo grande elo da corrente que vem de Deus até nós. A inspiração é o meio pelo qual a Bíblia recebeu sua autoridade: a canonização é o processo pelo qual a Bíblia recebeu sua aceitação definitiva. Uma coisa é um profeta receber uma mensagem da parte de Deus, mas coisa bem diferente é tal mensagem ser reconhecida pelo povo de Deus. Canonicidade é o estudo que trata do reconhecimento e da compilação dos livros que nos foram dados por inspiração de Deus.

Definição de canonicidade
A palavra cânon deriva do grego kanõn ("cana, régua"), que, por sua vez, se origina do hebraico kaneh, palavra do Antigo Testamento que significa "vara ou cana de medir" (Ez 40.3). Mesmo em época anterior ao cristianismo, essa palavra era usada de modo mais amplo, com o sentido de padrão ou norma, além de cana ou unidade de medida. O Novo Testamento emprega o termo em sentido figurado, referindo-se a padrão ou regra de conduta (Gl 6.16).

Emprego da palavra "cânon" pelo cristão da igreja primitiva
Nos primórdios do cristianismo, a palavra cânon significava "regra" de fé, ou escritos normativos (i.ev as Escrituras autorizadas). Por volta da época de Atanásio (c. 350), o conceito de cânon bíblico ou de Escrituras normativas já estava em desenvolvimento. A palavra cânon aplicava-se à Bíblia tanto no sentido ativo como no passivo. No sentido ativo, a Bíblia é o cânon pelo qual tudo o mais deve ser julgado. No sentido passivo, cânon significava a regra ou padrão pelo qual um escrito deveria ser julgado inspirado ou dotado de autoridade. Esse emprego em duas direções causa certa confusão, que tentaremos dissipar. Primeiramente, vamos verificar o que significa cânon em relação à Escritura no sentido ativo. Em seguida, verificaremos seu sentido passivo.

Alguns sinônimos de canonicidade
A existência de um cânon ou coleção de escritos autorizados antecede o uso do termo cânon. A comunidade judaica coligiu e preservou as Escrituras Sagradas desde o tempo de Moisés.

Escrituras Sagradas. Um dos conceitos mais antigos de cânon foi o de escritos sagrados. O fato de os escritos de Moisés serem considerados sagrados se demonstra pelo lugar santo em que eram guardados, ao lado da arca da aliança (Dt 31.24-26). Depois de o templo ter sido edificado, esses escritos sagrados foram preservados em seu interior (2Rs 22.8). A consideração especial dada a esses livros especiais mostra que eram tidos como canônicos, ou sagrados.

Escritos autorizados. A canonicidade das Escrituras também é designada autoridade divina. A autoridade dos escritos mosaicos foi salientada perante Josué e perante Israel (Js 1.8). Todos os reis de Israel foram exortados a esse respeito: "Quando se assentar no trono do seu reino, escreverá para si num livro uma cópia desta lei [...]. Conservará a cópia consigo, e a lera todos os dias de sua vida, para que aprenda a temer ao Senhor seu Deus, e a guardar todas as palavras desta lei..." (Dt 17.18,19). Visto que esses livros vieram da parte de Deus, vieram revestidos de sua autoridade. Sendo escritos dotados de autoridade, eram canônicos, i.e., normativos, para o crente israelita.

Livros que conspurcam as mãos. Na tradição de ensino de Israel, surgiu o conceito de livros tão sagrados, ou santos, que aqueles que os usassem ficariam com as mãos "conspurcadas". Assim diz o Talmude; "O evangelho e os livros dos hereges não maculam as mãos; os livros de Ben Sira quaisquer outros livros que tenham sido escritos desde sua época não são canônicos" (Tosefta Yadaim, 3,5). Ao contrário, os livros do Antigo Testamento hebraico na verdade tornam imundas as mãos, porque são santos. Por isso, só os livros que exigissem que seu leitor passasse por uma cerimônia especial de purificação é que eram considerados canônicos.

Livros proféticos. Como já dissemos antes (cap. 3), determinado livro só era considerado inspirado se escrito por um profeta, ou porta-voz de Deus. As obras e as palavras dos falsos profetas eram rejeitadas e jamais agrupadas e guardadas num lugar santo. De fato, segundo Josefo (Contra Ápion, 1,8), só os livros que haviam sido redigidos durante o período profético, de Moisés até o rei Artaxerxes, podiam ser canônicos. Assim se expressou Josefo: "Desde Artaxerxes até a nossa época tudo tem sido registrado, mas nada foi considerado digno do mesmo crédito das obras do passado, visto que a sucessão exata de profetas cessou". Foram, canônicos apenas os livros de Moisés a Malaquias, pois só esses foram, escritos por homens em sucessão profética. Do período de Artaxerxes (século IV a.C.) até Josefo (século I d.C), não houve sucessão profética; por isso, não faz parte do período profético. O Talmude faz a mesma afirmação, dizendo: "Até esta altura [século IV a.C] os profetas profetizavam mediante o Espírito Santo; a partir desta época inclinai os vossos ouvidos e ouvi as palavras dos sábios" (Seder Olam Rabba, 30). Portanto, para ser canônico, qualquer livro do Antigo Testamento deveria vir de uma sucessão profética, durante o período profético.

A determinação da canonicidade
Essas considerações em torno da canonicidade ajudam-nos a esclarecer o que significa Escrituras canônicas. A confusão existente entre os sentidos ativo e passivo da palavra cânon trouxe ambigüidade à questão do que determina a canonicidade de um livro.

Alguns conceitos deficientes sobre o que determina a canonicidade
Foram apresentadas várias opiniões a respeito do que determina a canonicidade de um escrito. Essas posições confunde os cânones, ou regras mediante as quais o crente descobre que determinado livro é inspirado (sentido passivo da palavra cânon), com os cânones dos escritos normativos que foram descobertos (sentido ativo da palavra cânon), Assim, tais teorias são insatisfatórias quanto aos conceitos sobre o que determina a canonicidade de um livro. Vamos examiná-las de modo sucinto.

A concepção de que a idade determina a canonicidade. A teoria segundo a qual a canonicidade de um livro é determinada pela sua antigüidade, que tal livro veio a ser venerado por causa de sua idade, erra o alvo por duas razões. Primeira: muitos livros velhíssimos, como o livro dos justos e o livro das guerras do Senhor (Js 10.13 e Nm 21.14) nunca foram aceitos no cânon. Em segundo lugar, há evidências de que os livros canônicos foram introduzidos no cânon imediatamente, e não depois de haverem envelhecido. E o caso dos livros de Moisés (Dt 31.24-26), de Jeremias (Dn 9.2) e dos escritos do Novo Testamento produzidos por Paulo (2Pe 3.16).

A concepção de que a língua hebraica determina a canonicidade. É insatisfatória também a teoria segundo a qual os livros que fossem escritos em hebraico, a língua "sagrada" dos hebreus, seriam considerados sagrados, e os que houvessem sido escritos em outra língua não seriam introduzidos no cânon. A verdade é que nem todos os livros redigidos em hebraico foram aceitos, como é o caso dos livros apócrifos e de outros documentos antigos não-bíblicos (v. Js 10.13). Além disso, há seções de alguns livros aceitos no cânon sagrado que não foram escritas em hebraico (Daniel 2.4b— 7.28 e Esdras 4.8— 6.18; 7.12-26 foram escritos em aramaico).

A concepção de que a concordância do texto com a Tora determina a sua canonicidade. É uma visão errônea, concernente à Tora (lei de Moisés). Nem é necessário mencionar que quaisquer livros que contradigam a Tora deviam ser rejeitados, tendo em vista a crença de que Deus não poderia contradizer-se em suas revelações posteriores. Essa teoria, porém, despreza duas questões de grande importância. Em primeiro lugar, não era a Tora que determinava a canonicidade dos escritos que lhe sucederam. Antes, o fator determinante da canonicidade da Tora era o mesmo que determinaria a de todas as demais Escrituras Sagradas, a saber, que os escritos fossem inspirados por Deus. Em outras palavras, a concepção de que a concordância com a Tora determina a canonicidade de um documento é insatisfatória porque não explica o que foi que determinou a canonicidade da Tora. Em segundo lugar, tal teoria é demasiado generalizante. Muitos outros textos que estavam de acordo com a Tora não foram aceitos como inspirados. Os pais judeus criam que seu Talmude e Midrash concordavam com a Tora, mas jamais os consideraram canônicos. O mesmo vale dizer de muitos escritos cristãos em relação ao Novo Testamento.

A concepção de que o valor religioso determina a canonicidade. Essa é outra hipótese: que o valor religioso de um livro determina sua inclusão no cânon sagrado. Outra vez temos aqui o carro adiante dos bois. É axiomático afirmar que, se um livro não tiver algum tipo de valor espiritual, deve ser rejeitado e eliminado do cânon. Também é verdade que nem todos os livros que possuem algum valor espiritual sejam automaticamente canônicos, como o comprovam alguns tesouros da literatura judeu-cristã, dos quais são alguns apócrifos. O fato mais importante, no entanto, é que essa teoria faz confusão entre causa e efeito. Não é o valor religioso que determina a canonicidade de um texto; é sua canonicidade que determina seu valor religioso. De forma mais precisa, não é o valor de um livro que determina sua autoridade divina, mas a autoridade divina é que determina seu valor.

A canonicidade é determinada pela inspiração
Os livros da Bíblia não são considerados oriundos de Deus por se haver descoberto neles algum valor; são valiosos porque provieram de Deus — fonte de todo bem. O processo mediante o qual Deus nos concede sua revelação chama-se inspiração. É a inspiração de Deus num livro que determina sua canonicidade. Deus dá autoridade divina a um livro, o os homens de Deus o acatam. Deus revela, e seu povo reconhece o que o Senhor revelou. A canonicidade é determinada por Deus e descoberta pelos homens de Deus. A Bíblia constitui o "cânon", ou "medida" pela qual tudo mais deve ser medido e avaliado pelo fato de ter autoridade concedida por Deus. Sejam quais forem as medidas (i.e., os cânones) usadas pela igreja para descobrir com exatidão que livros possuem essa autoridade canônica ou normativa, não se deve dizer que "determinam" a canonicidade dos livros. Dizer que o povo de Deus, mediante quaisquer regras de reconhecimento, "determina" que livros são autorizados por inspiração de Deus só confunde a questão. Só Deus pode conceder a um livro autoridade absoluta e, por isso mesmo, canonicidade divina.
O sentido primário da palavra cânon aplicado às Escrituras é aplicado na acepção ativa, i.e., a Bíblia é a norma que governa a fé. O sentido secundário, segundo o qual um livro é julgado por certos cânones e é reconhecido como inspirado (o sentido passivo), não deve ser confundido com a determinação divina da canonicidade. Só a inspiração divina determina a autoridade de um livro, i.e., se ele é canônico, de natureza normativa.

A descoberta da canonicidade
O povo de Deus tem desempenhado um papel de cabal importância no processo de canonização, ao longo dos séculos, ainda que tal papel não tenha natureza determinadora. A comunidade de crentes arca com a tarefa de chegar a uma conclusão sobre quais livros são realmente de Deus. A fim de cumprir esse papel, a igreja deve procurar certos característicos próprios da autoridade divina. Como poderia alguém reconhecer um livro inspirado só por vê-lo? Quais são os elementos característicos que distinguem uma declaração de Deus de um enunciado meramente humano? Vários critérios estavam em jogo nesse processo de reconhecimento.

Os princípios de descoberta da canonicidade
Nunca deixaram de existir falsos livros e falsas mensagens (v. caps. 8 e 10). Por representarem ameaça constante, fez-se necessário que o povo de Deus revisse cuidadosamente sua coleção de livros sagrados. Até mesmo os livros aceitos por outros crentes ou em tempos anteriores foram posteriormente questionados pela igreja. São discerníveis cinco critérios básicos, presentes no processo como um todo: 1) O livro é autorizado — afirma vir da parte de Deus? 2) É profético — foi escrito por um servo de Deus? 3) É digno de confiança — fala a verdade acerca de Deus, do homem etc? 4) É dinâmico — possui o poder de Deus que transforma vidas? 5) É aceito pelo povo de Deus para o qual foi originariamente escrito — é reconhecido como proveniente de Deus?

A autoridade de um livro. Como demonstramos antes (caps. 3 e 4), cada livro da Bíblia traz uma reivindicação de autoridade divina. Com freqüência a expressão categórica "assim diz o Senhor" está presente. Às vezes o tom e as exortações revelam sua origem divina. Sempre existe uma declaração divina. Nos escritos mais didáticos (os de ensino), existe uma declaração divina a respeito do que os crentes devem fazer. Nos livros históricos, as exortações ficam mais implícitas, e as declarações autorizadas são mais a respeito do que Deus tem feito na história de seu povo (que é "a história narrada por Deus"). Se faltasse a um livro a autoridade de Deus, esse era considerado não-canônico, não sendo incluído no cânon sagrado.
Vamos ilustrar esse princípio de autoridade no que se relaciona ao cânon. Os livros dos profetas eram facilmente reconhecidos como canônicos por esse princípio de autoridade. A expressão repetida "e o Senhor me disse" ou "a palavra do Senhor veio a mim" é evidência abundante de sua autoridade divina. Alguns livros não tinham nenhuma reivindicação de origem divina, pelo que foram rejeitados e tidos como não-canônicos. Talvez tenha sido o caso do livro dos justos e do livro das guerras do Senhor, Outros livros foram questionados e desafiados quanto à sua autoridade divina, mas por fim foram aceitos no cânon. É o caso de Ester. Não antes de se tornar perfeitamente patente que a proteção de Deus e, portanto, as declarações do Senhor a respeito de seu povo estavam inqüestionavelmente presentes em Ester, recebeu este livro lugar permanente no cânon judaico. Na verdade, o simples fato de alguns livros canônicos serem questionados quanto à sua legitimidade é uma segurança de que os crentes usavam seu discernimento. Se os crentes não estivessem convencidos da autoridade divina de um livro, este era rejeitado.

A autoria profética de um livro. Os livros proféticos só foram produzidos pela atuação do Espírito, que moveu alguns homens conhecidos como profetas (2Pe 1.20,21). A Palavra de Deus só foi entregue a seu povo mediante os profetas de Deus. Todos os autores bíblicos tinham um dom profético, ou uma função profética, ainda que tal pessoa não fosse profeta por ocupação (Hb 1.1).
Paulo exorta o povo de Deus em Gálatas, dizendo que suas cartas deveriam ser aceitas porque ele era apóstolo de Cristo. Suas cartas não foram produzidas por um homem comum, mas por um apóstolo; não "por homem algum, mas por Jesus Cristo, e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos" (Gl 1.1). Suas cartas deviam ser acatadas porque eram apostólicas — saíram de um porta-voz de Deus, ou profeta de Deus. Todos os livros deveriam ser rejeitados caso não proviessem de profetas nomeados por Deus; essa era a advertência de Paulo. Os crentes não deviam aceitar livros de alguém que falsamente afirmasse ser apóstolo de Cristo (2Ts 2.2), conforme advertência de Paulo também em 2Coríntios ti .13 a respeito dos falsos profetas. As advertências de João sobre os falsos messias e para que os crentes provassem os espíritos enquadram-se nessa mesma categoria (1Jo 2.18,19 e 4.1-3). Foi por causa desse princípio profético que a segunda carta de Pedro foi objetada por alguns da igreja primitiva. Enquanto os pais da igreja não ficaram convencidos de que essa carta não havia sido forjada, mas de fato viera da mão do apóstolo Pedro, como seu primeiro versículo o menciona, ela não recebeu lugar permanente no cânon cristão.
A confiabilidade de um livro. Outro sinal característico da inspiração é o ser um livro digno de confiança. Todo e qualquer livro que contenha erros factuais ou doutrinários (segundo o julgamento de revelações anteriores) não pode ter sido inspirado por Deus. Deus não pode mentir; as palavras do Senhor só podem ser verdadeiras e coerentes.
À vista desse princípio, os crentes de Beréia aceitaram os ensinos de Paulo e pesquisaram as Escrituras, para verificar se o que o apóstolo estava ensinando estava de fato de acordo com a revelação de Deus no Antigo Testamento (At 17.11). O mero fato de um texto estar de acordo com uma revelação anterior não indica que tal texto é inspirado. Mas a contradição de uma revelação anterior sem dúvida seria indício de que o ensino não era inspirado.
Grande parte dos apócrifos foi rejeitada por causa do princípio da confiabilidade. Suas anomalias históricas e heresias teológicas os rejeitaram; seria impossível aceitá-los como vindos de Deus, a despeito de sua aparência de autorizados. Não podiam vir de Deus e ao mesmo tempo apresentar erros.
 Alguns livros canônicos foram questionados com base nesse mesmo princípio. Poderia a carta de Tiago ser inspirada, se contradissesse o ensino de Paulo a respeito da justificação pela fé e nunca pelas obras? Até que a compatibilidade essencial entre os autores se comprovasse, a carta de Tiago foi questionada por alguns estudiosos. Outros questionaram Judas por causa de sua citação de livros não-confiáveis, pseudepigráficos (vv 9,14). Desde que ficasse entendido que as citações feitas por Judas 1 não podiam conferir nenhuma autoridade àqueles livros, assim como as citações feitas por Paulo, de poetas não-cristãos (v. tb. At 17.28 e Tt 1.12), não poderia conferir a esses nenhuma autoridade, nenhuma razão haveria para que a carta de Judas fosse rejeitada.

A natureza dinâmica de um livro. O quarto teste de canonicidade, às vezes menos explícito do que alguns dos demais, era a capacidade do texto de transformar vidas: "... a palavra de Deus é viva e eficaz..." (Hb 4.12). O resultado é que ela pode ser usada "para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça" (2Tm 3.16,17).
O apóstolo Paulo revelou-nos que a habilidade dinâmica das Escrituras inspiradas estava implicada na aceitação das Escrituras como um todo, como mostra 2Timóteo 3.16,17. Disse Paulo a Timóteo: "... as sagradas letras [...] podem fazer-te sábio para a salvação..." (v. 15). Em outro texto, Pedro se refere ao poder de evangelização e de edificação cristã da Palavra (1Pe 1.23; 2.2). Outros livros e mensagens foram rejeitados porque apresentavam falsas esperanças (1Rs 22.6-8) ou faziam rugir alarmes falsos (2Ts 2.2). Assim, não conduziam o crente ao crescimento na verdade de Jesus Cristo. Assim dissera o Senhor: "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" (Jo 8.32). O ensino falso jamais liberta; só a verdade possui poder emancipador.
Alguns livros da Bíblia, como Cântico dos Cânticos e Eclesiastes, foram questionados por alguns estudiosos os julgarem isentos desse poder dinâmico, capaz de edificar o crente. Desde que se convenceram de que Cântico dos Cânticos não era sensual, mas profundamente espiritual, e que Eclesiastes não é um livro cético e pessimista, mas positivo e edificante (e.g., 12.9,10), pouca dúvida restou acerca de sua canonicidade.

A aceitação de um livro. A marca final de um documento escrito autorizado é seu reconhecimento pelo povo de Deus ao qual originariamente havia destinado. A Palavra de Deus, dada mediante seus profetas e intendo sua verdade, deve ser reconhecida pelo seu povo. Gerações posteriores de crentes procuraram constatar esse fato. É que, se determinado livro fosse recebido, coligido e usado como obra de Deus, pelas pessoas a quem originariamente se havia destinado, ficava comprovada a sua canonicidade. Sendo o sistema de comunicações e de transportes atrasado como era nos tempos antigos, às vezes a determinação da canonicidade de um livro da parte dos pais da igreja exigia muito tempo, e esforço. É por essa razão que o reconhecimento definitivo, completo, por toda a igreja cristã, dos 66 livros do cânon das Escrituras Sagradas exigiu tantos anos (v. cap. 9).
Os livros de Moisés foram aceitos imediatamente pelo povo de Deus. Foram coligidos, citados, preservados e até mesmo impostos sobre as novas gerações (v. cap. 3). As cartas de Paulo foram recebidas imediatamente pelas igrejas às quais haviam sido dirigidas (1Ts 2.13), e até pelos demais apóstolos (2Pe 3.16). Alguns escritos foram imediatamente rejeitados pelo povo de Deus, por não apresentarem autoridade divina (2Ts 2.2). Os falsos profetas (Mt 7.21-23) e os espíritos de mentira deveriam ler testados e rejeitados (1Jo 4.1-3), como se vê em muitos exemplos dentro da própria Bíblia (cf. Jr 5.2; 14.14). Esse princípio de aceitação levou alguns a questionar durante algum tempo certos livros da Bíblia, como 2 e 3João. São de natureza particular e de circulação restrita; é compreensível pois, que houvesse alguma relutância em aceitá-los, até que essas pessoas em dúvida tivessem absoluta certeza de que tais livros haviam lido recebidos pelo povo de Deus do século I como cartas do apóstolo João.
É quase desnecessário dizer que nem todas as pessoas deram pronto reconhecimento às mensagens dos profetas de Deus. Deus assumia a defesa rigorosa de seus profetas, contra todos quantos os rejeitassem (e.g., 1Rs 22.1-38). E, quando o Senhor era desafiado, mostrava quem era seu povo. Quando a autoridade de Moisés foi desafiada por Core e seus asseclas, a terra se abriu e os engoliu vivos (Nm 16). O papel do povo de Deus era decisivo no reconhecimento da Palavra de Deus. O próprio Deus havia determinado a autoridade que envolvia os livros do cânon que ele inspirara, mas o povo de Deus também havia sido chamado para essa tarefa: descobrir quais eram os livros dotados de autoridade, e quais eram falsos. Para auxiliar o povo de Deus nessa descoberta, havia cinco testes de canonicidade.

O procedimento para a descoberta da canonicidade
Quando nos pomos a discorrer sobre o processo de canonização, não devemos imaginar uma comissão de pais da igreja, carregando pilhas de livros, tendo diante dos olhos a lista desses cinco princípios orientadores. Tampouco houve uma comissão ecumênica nomeada com o objetivo de canonizar a Bíblia. O processo era muitíssimo natural e dinâmico. O desenvolvimento da história real da criação do cânon do Antigo e do Novo Testamento será discutido mais tarde (caps. 7 e 9). O que devemos registrar aqui é como as cinco regras determinadoras da canonicidade foram 1 usadas no processo de descobrir que livros eram inspirados por Deus, sendo, por isso, canônicos.

Alguns princípios estão apenas implícitos no processo. Embora todos os cinco elementos estejam presentes em cada documento escrito e inspirado, nem todas as regras de reconhecimento ficam visíveis na decisão sobre a provável (ou improvável) inspiração de cada livro. Nem sempre parecia imediatamente óbvio ao antigo povo de Deus que determinado livro fosse "dinâmico" ou "autorizado". Era-lhes mais óbvio o fato de um livro ser "profético" e "aceito". Você pode ver facilmente como a expressão implícita "assim diz o Senhor" desempenhava papel de grande importância na descoberta e na determinação dos livros canônicos, reveladores do plano redentor global de Deus. No entanto, às vezes acontecia o contrário; em outras palavras, o poder e a autoridade de um livro eram mais visíveis do que sua autoria (e.g., Hebreus). De qualquer maneira, todas as cinco características estavam presentes na descoberta e na determinação de cada livro canônico, ainda que alguns desses princípios só fossem aplicados de modo implícito.

Alguns princípios atuavam de modo negativo no processo. Algumas das regras de reconhecimento atuavam de modo mais negativo que outras. Por exemplo, o princípio da confiabilidade eliminava mais depressa os livros não-canônicos, não tendo a mesma rapidez para indicar os canônicos. Não existem ensinos falsos que, apesar disso, sejam canônicos; no entanto, há muitos escritos que expõem a verdade sem jamais terem sido inspirados. De modo semelhante, muitos livros que edificam ou apresentam dinâmica espiritual positiva não são canônicos, embora nenhum livro canônico deixe de ter importância no plano salvífico de Deus.
Semelhantemente, um livro pode reivindicar autoridade sem ser inspirado por Deus, como o mostram os muitos livros apócrifos, mas nenhum livro pode ser canônico sem que seja revestido de autoridade divina. Em outras palavras, se a um livro faltar autoridade, é certo que não veio de Deus. Mas o simples fato de um livro reivindicar autoridade para si mesmo não o torna, ipso facto, inspirado. O princípio da aceitação tem função primordialmente negativa. Nem mesmo o fato de um livro receber aceitação de parte do povo de Deus significa prova de sua inspirado. Muitos anos depois, passadas algumas gerações de cristãos, alguns destes, mal-informados a respeito da aceitação ou da rejeição pelo povo de Deus dos livros propostos, atribuíram reconhecimento local, temporal, a certos livros não-canônicos (e.g., alguns livros apócrifos; v. caps. 8 e 10). O simples fato de um livro qualquer ter sido aceito em algum lugar, por alguns crentes em Cristo, de modo algum constitui prova da canonicidade e da inspiração de tal livro. O reconhecimento inicial de determinado livro, pelo povo de Deus, que estava na melhor posição possível para testar a autoridade profética desse livro, é elemento de cabal importância. Levou algum tempo até que todos os segmentos das gerações posteriores de cristãos ficassem totalmente informados a raspei to das circunstâncias iniciais. Assim, a aceitação por parte desses cristãos posteriores é importante, mas funciona como apoio adicional.

O princípio realmente essencial substitui todos os demais princípios. No alicerce de todo o processo de reconhecimento existe um princípio fundamental — o da natureza profética do livro. Se um livro houver sido escrito por um profeta prestigiado e honrado de Deus, e se ele afirmar que apresentará uma enunciação autorizada da parte de Deus, nem há necessidade de formular as demais perguntas. É claro que o povo de Deus reconheceu esse livro como poderoso e verdadeiro, quando lhes foi entregue por um profeta de Deus. Quando não havia confirmação direta da vocação desse profeta da parte de Deus (como freqüentemente havia, cf. Êx 4.1-9), então a confiabilidade, a habilidade dinâmica desse livro e sua aceitação pelo povo, ou seja, pela comunidade cristã original, seria elemento essencial para o reconhecimento posterior de sua inspiração.
A questão de poder ou não a falta de confiabilidade afastar a confirmação de um livro profético é puramente hipotética. Nenhum livro concedido por Deus pode ser falso. Se um livro que se considera profético apresenta falsidade inquestionável, é preciso que se reexaminem suas credenciais proféticas. Deus não pode mentir. Dessa forma, os outros quatro princípios servem para conferir o caráter profético dos livros do cânon.

Fonte: GEISLER, Norman; Willian Nix. Introdução Bíblica - Como a Bíblia Chegou até nós. São Paulo : Vida, 1997. 

17 de agosto de 2012

John Bright - A Religião dos Patriarcas


Mas não podemos satisfazer-nos apenas com demonstrar que os patriarcas foram indivíduos históricos do segundo milênio a.C. Devemos indagar o seu lugar na história da religião, especificamente da religião de Israel. É sobretudo aqui que se encontra o nosso interesse particular por eles. Fora disso, eles não nos interessariam mais do que quaisquer outros seminômades obscuros que vagueavam pelo mundo em épocas remotas. A Bíblia considera Moisés o fundador da religião de Israel, e realmente ele o foi. Mas ela também começa a história de Israel e de sua fé com Abraão. Com efeito, a história da redenção, que é o tema central de ambos os Testamentos, começa co.m ele. Sabemos que Abraão partiu de Haran por ordem de seu Deus, tendo-lhe ele prometido terra e posteridade no lugar que lhe seria mostrado (Gn 12,1-3). Esta promessa, repetidas vezes renovada (Gn 15,5.13-16; 18,18ss etc.) e selada por aliança (Gn 15,7-12.17-21ss etc.), foi feita também a Isaac (Gn 26,2-4) e a Jacó (Gn 28,13-15;35,llss etc.) e a Moisés (Ex 3,6-8;6,2-8 etc.) e começou a cumprir-se — embora não com um cumprimento perfeito e completo — na doação da Terra Prometida. Visto deste ângulo, Abraão aparece como o primeiro antepassado da religião de Israel.

16 de agosto de 2012

John Bright - Os Patriarcas como figuras históricas


A evidência que aduzimos até agora nos dá todo o direito de afirmar que as narrativas patriarcais estão firmemente fundamentadas na história. Mas devemos parar aqui? Devemos considerar os patriarcas apenas como um reflexo de movimentos impessoais de clã? De modo nenhum! Devemos afirmar com plena confiança que Abraão, Isaac e Jacó foram indivíduos históricos reais.

a.  Chefes de clãs seminômades. — A afirmação que acabamos de fazer poderia ser hoje posta em dúvida por alguns. As tentativas antigas de não achar nos patriarcas mais que a criação livre da lenda, antepassados epônimos de clãs, ou figuras atenuadas de deuses, já foram abandonadas e de tal forma que não merecem hoje a mínima discussão.

O sabor de autenticidade das estórias nos impede que consideremos os patriarcas como lendários, e a descrição deles, que nos é apresentada, não tem nada de mitológico.

Há, naturalmente, motivos folclóricos nas estórias. Mas estes motivos pertencem ao desenvolvimento da narrativa, não às suas figuras centrais, que nos são descritas da maneira mais realista.

15 de agosto de 2012

John Bright - A migração dos Patriarcas


OS ANTEPASSADOS HEBREUS E A HISTÓRIA

1.  A migração dos Patriarcas

Concedendo-se, portanto, que as narrativas patriarcais têm visos de mais genuína autenticidade, o que é que poderemos dizer mais? Primeiramente, pela historicidade da tradição os antepassados de Israel vieram originalmente da Alta Mesopotâmia para a população seminômade com cuja área eles sentiam uma íntima afinidade. Isso não se pode em absoluto negar.

a.  A tradição bíblica. -— A tradição bíblica é unânime sobre este ponto. Dois dos documentos mencionam expressamente Haran como o ponto de partida da jornada de Abraão (Gn 11,32; 12,5 [P]) e, depois, como a pátria de Labão, parente de Abraão (por exemplo, Gn 27,43;28,10;29,4 [J]).

Em outra parte Labão é colocado em Paddan-aram (Gn 25,20; 28,1-7;31,18 [P]) — outro nome para a mesma área, quando não lugar idêntico —[1]  e, ainda em outra parte (Gn 24,10 [J]), na cidade de Nahor (Nakhur, no vale Balikh, perto de Haran) em Aram-naharaim (Mesopotâmia). Somente o material atribuído a E não faz nenhuma menção especial à área de Haran — provavelmente um acidente de sua natureza fragmentária — mas ele também dá conta (Gn 31,21) de que a pátria de Labão era além do Eufrates. A tradição é também confirmada por Js 24,2ss, passagem essa geralmente atribuída a E ou D, porém muito mais antiga do que ambas.

14 de agosto de 2012

John Bright - O ambiente histórico das narrativas patriarcais


1. Os Patriarcas no contexto da primeira metade do segundo milênio

 Quando as tradições são examinadas à luz da evidência, a primeira afirmação a ser feita é a que já foi sugerida, isto é, que a história dos patriarcas se enquadra inquestionável e autenticamente no ambiente do segundo milênio, especialmente no ambiente dos séculos descritos no capítulo precedente, e não no ambiente de qualquer outro período posterior. Isto pode ser registrado como um fato histórico. A evidência é tão grande que não temos nenhuma necessidade de reconsiderarmos o assunto[1].

a. Os primitivos nomes hebraicos no contexto do segundo milênio. — Primeiramente, os nomes que aparecem nas narrativas patriarcais se enquadram perfeitamente numa classe que sabemos que foi corrente tanto na Mesopotâmia como na Palestina no segundo milênio, especificamente entre o elemento amorita da população[2].

13 de agosto de 2012

Encontrado trigo que provavelmente seja do tempo de Josué


O Trigo que foi descoberto após milhares de anos - Parque Nacional de Tel Hazor Parque Nacional, O palácio cananeu

Em um edifício monumental que foi revelado durante as escavações recentes descoberto um quarto de uma armazém contendo 14 frascos grandes (pithoi) onde foram encontrados o trigo queimado de mais de 3.300 anos.

As escavações arqueológicas em Hazor estão sendo conduzidas pela Universidade Hebraica de Jerusalém, em cooperação com a Autoridade dos Parques Nacionais desde os anos oitenta. Em 2007, o monte foi declarado pela UNESCO como Património Cultural da Humanidade.

Estudioso judeu conclui projeto de correção da Bíblia Hebraica



Um estudioso judeu concluiu um projeto de 30 anos que o envolveu na correção do que ele diz que são centenas de erros gramaticais na Bíblia hebraica, ou Antigo Testamento, fazendo a primeira edição do texto em quase 500 anos.

O estudioso, Menachem Cohen, 84, revelou no início desta semana que ele havia corrigido cerca de 1.500 erros gramaticais na Bíblia hebraica. Seu trabalho está previsto para ser publicado no próximo ano.

"O povo de Israel tomou para si, pelo menos em teoria, uma versão da Bíblia, até a sua última carta," Cohen contou à Associated Press a partir de seu escritório na Universidade Bar-Ilan, perto de Tel Aviv.

John Bright - Narrativas Patriarcais: O problema e o método seguido


As histórias dos patriarcas (Gênesis, capítulos 12 a 50) formam o primeiro capítulo da grande história teológica das origens de Israel que encontramos nos primeiros seis livros da Bíblia. Eles nos dão conta de que, séculos antes de Israel tomar posse de Canaã, seus antepassados tinham vindo da longínqua Mesopotâmia e como seminômades tinham vagueado pela terra, sustentados pelas promessas de seu Deus de que ela um dia ia pertencer à sua posteridade.

Virtualmente tudo o que conhecemos das origens de Israel e de sua pré-história, antes que começasse a viver como povo na Palestina, deriva da narrativa do Hexateuco, que preservou para nós a tradição nacional[1]  relativa a estes acontecimentos como o próprio Israel os recordava.

Nenhum povo antigo tinha tradições comparáveis a estas. Com efeito, pela riqueza de pormenores, beleza literária e profundeza teológica, elas não têm paralelo com as tradições desse tipo na história. As narrações das quais nos ocupamos agora — as narrações dos patriarcas — devem ser postas, como se verá com clareza mais abaixo, no contexto dos séculos descritos no capítulo precedente.

10 de agosto de 2012

Teologia Bíblica e Teologia Sistemática - Eugene H. Merrill


Os termos bíblico e teologia evocam uma gama de conotações e associações. O que, então, dizer da combinação Teologia Bíblicai Não é tautológico o uso em  conjunto? Não é auto-evidente que os adjetivos bíblico e teológico são praticamen te sinônimos e que, em todo caso, a teologia é inconcebível sem a Bíblia?
Estas e outras perguntas semelhantes têm surgido desde os tempos do Antigo Testamento e ao longo do curso da história da Igreja e exigido novas respostas a cada geração. Hoje, na primeira década do século XXI, mais do que nunca, isto é verdadeiro, pois as disciplinas gêmeas da teologia e erudição bíblica estão em tremenda desordem e raramente a Igreja tem estado menos segura sobre as suas inter-relações.[1]

As DISTINÇÕES DA TEOLOGIA SISTEMÁTICA

A interpretação tradicional da Teologia Bíblica manifesta-se em uma de duas formas: (1) é o corpo da verdade contida na Bíblia, quer esteja ou não sistematizada em algum ponto; ou (2) é a verdade que se origina na Bíblia, mas que se expressa em categorias lógicas e filosóficas.[2]  A ultima forma, mais corretamente definida por Teologia Sistemática, é

Gleason L. Archer - A antiguidade da raça humana


Desde as primeiras descobertas de fósseis e dos artefatos do homem pré-histórico, feitas na década de 1850, a antiguidade da raça humana tem constituído um problema de reconciliação com o relato de Gênesis. Segundo estimativas modernas, o assim-chamado Homem de Swanscombe (descoberto em Kent, Inglaterra), o Pitecántropo (achado em Java), e o Sinántropo (descoberto em Pequim, China), viviam em qualquer época entre há 200.000 e 500.000 anos. Todos eles demonstram diferenças marcantes do Homo sapiens, sém dúvida, e alguns paleantropólogos reconheceram que “as diferenças dos dentes e do crânio... parecem ser tão marcantes como aquelas que comumente seriam consideradas aceitáveis para justificar uma distinção genética entre o gorila e o chimpanzé”.[1]

Quanto ao Homem de Neandertal, que comumente é datado entre há 50.000 e 100.000 anos, o mesmo escritor declara: “As diferenças esqueléticas entre este e o Homo sapiens são realmente do mesmo montante que aquelas que se aceitam como evidência válida de distinções específicas em outros grupos de primatas”. [2]

9 de agosto de 2012

Gleason L. Archer - O criacionismo bíblico e o evolucionismo moderno


Uma questão mais fundamental do que a natureza dos dias da criação é a relacionada com o fato de a criação ser divina, em contraste com as teorias rivais da origem do universo, tais como o evolucionismo darwinista. O evolucionismo, conforme sua formulação por Charles Darwin na sua obra A Origem das Espécies (1859), procurava a explicação da origem das espécies biológicas na seleção natural e não no desígnio de Deus. Isto quer dizer que o processo pelo qual se desenvolviam as plantas e os animais não era governado por qualquer inteligência divina de acordo com princípios teológicos, mas, ao contrário, segundo um princípio puramente mecânico: a sobrevivência dos mais capazes. No decurso do ciclo reprodutivo segundo os ensinamentos de Darwin, cada geração demonstra ligeiras modificações da geração anterior. Durante um longo período de tempo, depois de centenas e milhares de gerações, algumas destas variações se transformam em características mais ou menos fixas, que então passam à descendência.

8 de agosto de 2012

Gleason L. Archer - Livro de Gênesis: Os seis dias da criação e a idade do mundo


O título Gênesis (palavra grega significando “começo”) foi dado a este livro na tradução da Septuaginta. O título hebraico consiste na primeira palavra do livro, berêshíth (“No princípio”).

O tema ou principal assunto tratado é o das origens: a origem do mundo criado, da raça humana, das várias nações da terra, e depois, de maneira particular, da família da aliança que compõe o povo redimido de Deus.

Quanto à autoria do livro, não contém nenhuma declaração direta quanto à composição. Segundo a tradição, porém, o autor foi o próprio Moisés, e uma ordenança específica como a circuncisão no oitavo dia, que aparece em Gênesis 17:12, se refere no Novo Testamento (Jo 7:23) como fazendo parte da lei de Moisés. Esta tradição é apoiada pela circunstância de que é justamente Gênesis que oferece com precisão a informação necessária para fazer inteligível o livro de Êxodo. É no livro de Gênesis que se definem as promessas feitas a Abraão, Isaque e Jacó, promessas estas, tão freqüentemente referidas nos demais livros da Torá, como tendo sido cumpridas pelos acontecimentos momentosos do Êxodo e da conquista de Canaã. Além disso, o fato de Êxodo começar com a palavra “e” (no hebraico) indica que era a continuação do livro anterior.

7 de agosto de 2012

John Bright - O Mundo das Origens de Israel (Conclusão)


(Parte 1) (Conclusão)

B. O ANTIGO ORIENTE DE 1750 A 1550 a .C. APROXIMADAMENT

1. A luta pelo Poder no décimo oitavo século na Mesopotâmia

Enquanto o Médio Império estava desmoronando no Egito, vinha começando a formar-se uma luta pelo poder na Mesopotâmia, que viria a culminar com o triunfo de Babilônia, sob o grande Hammurabi. Principais atores deste drama, além da própria Babilônia, foram Larsa, Assíria e Mari.

a.   Expansão de Larsa e Assíria. — Depois da queda de Ur III, a Mesopotâmia se tornou, por duzentos anos, o campo de batalha de pequenas rivalidades dinásticas.

Os mais importantes destes rivais, no sul, no começo do século dezoito, foram Isin, Larsa e Babilônia, cidades governadas por dinastias amoritas. Aliás, já vimos como, em 1770, mais ou menos, Kudur-mabuk, príncipe de Yamutbal, destruiu a dinastia de Larsa e estabeleceu seu filho Warad-sin como governante da cidade.

6 de agosto de 2012

John Bright - O Mundo das Origens de Israel (Parte 1)


(Parte 1) (Conclusão)
A primeira metade do segundo milênio a.C. (aproximadamente 2000-1550) nos leva à idade das origens de Israel.

Foi num determinado período, durante o curso destes séculos, que o Pai Abraão partiu de Haran, com sua família, seus rebanhos e suas manadas, para procurar terra e descendência no lugar que Deus ia mostrar-lhe. Ou, para usar outras palavras, então ocorreu a migração para a Palestina de povos seminômades, entre os quais se encontravam os antepassados de Israel. Com esta migração começou aquela cadeia de acontecimentos , tão transcendentes para a história do mundo e tão redentores — a pessoa que tem fé diria “tão divinamente guiados” — que chamamos a história de Israel.

Poder-se-ia objetar que começar a história de Israel tão cedo seria muita pretensão, ou, pelo menos, o emprego impróprio da palavra “história”.

5 de agosto de 2012

Mapas do Antigo Testamento (Parte 4)

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A arca na terra dos filisteus

Cruzando o Rio Jordão

Divisão das doze tribos

Locais chave no livro de 1 Crônicas

Locais chave no livro de 1 Samuel

Locais chave no livro de 2 Sanuel

Locais chave no livro de Ester

Locais chave no livro de Josué

Locais chave no livro de Juízes

Locais chave no livro de Rute

Rute volta para casa com Noemi

Saul é coroado rei

Vida de Sansão

Vitória de Gideão