26 de abril de 2012

Divórcio e o Sentido de Porneia na Cláusula de Exceção em Mateus 5.32 e 19.9




Uma das características distintivas do Evangelho de Mateus é a presença de uma cláusula de exceção à proibição do divórcio, que é mencionada duas vezes na obra: 5.32 e 19.9. O assunto é difícil e polêmico. Não é objetivo deste simplório trabalho abarcá-lo de maneira satisfatória. Faremos apenas considerações gerais e apresentaremos algumas dificuldades de interpretações, bem como algumas posições adotadas por estudiosos ao longo dos séculos. O nosso objetivo é simplesmente apresentar algumas possíveis interpretações de porneia em Mateus 5.32 e 19.9.


O Matrimônio e o Divórcio na Bíblia: Considerações Gerais
Antes de abordar a exceção, é necessário entender a regra divina a respeito do casamento. Em toda a Bíblia, o casamento é apresentado como uma instituição divina e o propósito de Deus é que uma união matrimonial não seja desfeita jamais.


No Antigo Testamento, encontramos uma declaração expressa do Senhor, que revela o que Deus pensa sobre o divórcio: “Eu odeio o divórcio” (Ml 2.16). Portanto, uma união matrimonial que se desfaz é algo odioso para Deus.

No Novo Testamento, Jesus ensina claramente que o divórcio é proibido: “Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe[1] o homem.” (Mt 19.6; Cf. Mc 10.9).

O apóstolo Paulo, por sua vez, retomando os ensinamentos do Senhor, também proíbe o divórcio: nem a mulher pode apartar-se do marido, nem o marido pode deixar a mulher.[2] Caso isso viesse a acontecer, ambos teriam apenas duas opções: ficar sem casar, ou promover a reconciliação (1Co 7.10-11). Isso porque a simples separação de corpos não significaria a solubilidade do casamento.

O Divórcio no Antigo Testamento
Deus nunca instituiu ou ordenou o divórcio. Em sua discussão com os fariseus, Jesus declara que o propósito original de Deus para o homem não inclui o divórcio, mas que ele foi permitido, no Antigo Testamento, apenas por causa da dureza dos corações dos homens (cf. Mt 19.3ss).

Em Deuteronômio 24.1-4, encontramos a legislação a respeito do repúdio no contexto do Antigo Testamento: “Quando um homem tomar uma mulher e se casar com ela, então será que, se não achar graça em seus olhos, por nela encontrar coisa indecente, far-lhe-á uma carta de repúdio, e lha dará na sua mão, e a despedirá da sua casa.” 

Observando esse texto, podemos identificar, basicamente, quatro coisas que configuram o divórcio no Antigo Testamento: (i) Uma razão para o marido reprovar a esposa, que o texto revela como sendo algo de indecente encontrado nela; (ii) O divórcio deveria ser formal: o marido teria de fazer uma carta de repúdio, ou seja, um documento formal de divórcio; (iii) A separação deveria ser irreversível: depois de mandá-la embora e a esposa se juntasse a outro homem, o marido não poderia recebê-la de volta; (iv) Com o divórcio , haveria liberdade para um novo matrimônio.

O Divórcio no Novo Testamento.
1) Jesus rompe com a interpretação tradicional dos judeus a respeito do divórcio
É importante observar que Jesus rompe com a perspectiva tradicional dos judeus da época de Jesus a respeito do divórcio. Naquele tempo, havia um grupo de judeus que justificava o repúdio por qualquer razão banal[3]. “Um homem podia divorciar-se de sua esposa por qualquer pretexto, e tinha muita facilidade para tomar uma concubina”.[4]

Observando Mateus 5.31-32[5] e 19.9, notamos que Jesus, após falar sobre a permissão para o divórcio tal como mencionado no Antigo Testamento (o homem que desejasse repudiar a sua esposa deveria fazê-lo formalmente), ele declara: “Eu, porém, vos digo [...]”[6]. Com essa expressão adversativa, Jesus se contrapõe à perspectiva judaica que era bastante simplista a respeito do casamento: bastaria formalizar o divórcio e o casamento seria destituído. 

Conforme Fuentes[7], na discussão com os fariseus,
Jesus, após recordar a permissão mosaica, passa a legislar restaurando o matrimônio em sua força original. Ele tem consciência de estar ab-rogando uma lei transitória do Antigo Testamento; por isso, introduz a nova legislação (no mínimo, no texto de Mateus 5 com as palavras: "Mas eu vos digo", locução com a qual, no Sermão da Montanha, opõe precisamente ao ensino dos antigos a sua própria superioridade.

De fato, na discussão com os fariseus, Jesus ressalta o propósito original de Deus em relação ao matrimônio, admitindo que a carta de divórcio era um recurso temporário,  visando regulamentar a prática do divórcio, tornando-o algo difícil e penoso, para que não fosse praticado de qualquer maneira. A necessidade dessa exceção era a dureza do coração dos homens. Certamente, foi uma maneira de minorar outros males como, por exemplo, casos de violência no lar.  

Para Martyn Lloyd Jones[8], Jesus, na verdade, não estava opondo seus princípios com a Lei que Moisés havia dado. Ele lembra que o cenário em que Jesus discute com os fariseus é aquele em que o Mestre demonstra “a relação entre seu Reino e o ensino da lei de Deus, a qual fora dada por intermédio de Moisés ao povo de Israel”. E Jesus realça, não a quebra da lei, mas seu cumprimento. Nesse contexto, por seis vezes Jesus apresenta um contraste (“Também foi dito... Eu, porém, vos digo”), não entre seu ensino e a lei de Moisés, mas entre seu ensino e as falsas interpretações dos escribas e fariseus: “Nosso Senhor, como é óbvio, não declara que viera corrigir a lei de Moisés [...], mas “[...] corrigir a perversão, a interpretação falsa, conforme os escribas e fariseus vinham ensinando ao povo”. Portanto, segundo o autor, Jesus declara a ruptura sim, não com a lei mosaica, mas com a tradição interpretativa dos judeus, que tratava o divórcio sem a seriedade devida. Conforme Lloyde Jones, Jesus expõe a correta visão a respeito do casamento, contrariando as interpretações dos judeus. 

De toda a discussão, o que fica claro é que Jesus (não obstante a cláusula de exceção) está enfatizando não a permissão para o divórcio, mas, pelo contrário, a indissolubilidade do casamento (exceto em caso de porneia). Essa ênfase é tão radical, que os próprios discípulos consideram o casamento como algo inadequado para o homem, visto que não poderia ser desfeito: “Disseram-lhe seus discípulos: Se assim é a condição do homem relativamente à mulher, não convém casar”. (Mt 19.10). Nesse ponto Fuentes, citado supra, parece estar correto ao dizer que Jesus intencionava restaurar “o matrimônio em sua força original”. 

Portanto, antes de interpretar a cláusula de exceção, devemos entender que, na discussão com os fariseus, Jesus foi mais radical do que a interpretação corrente dos judeus a respeito do repúdio, deixando claro a proibição e as consequências de um divórcio. 

2) Jesus explica as consequências de um divórcio
 Provavelmente, o que Jesus ensinou a respeito da consequência do divórcio foi definitivo para a reação dos discípulos. Conforme Jesus, a mulher repudiada estaria exposta ao adultério. Além disso, quem casasse com ela também cometeria adultério. Da mesma forma, o homem que abandonasse a sua mulher, e casasse com outra, cometeria adultério (Mt 5.32; 19.9; Mc 10.11-12; Lc 16.18). A simples separação de modo algum invalidaria o casamento, na perspectiva de Jesus. Certamente, por essa razão, o apóstolo Paulo afirma que uma união entre dois crentes não pode ser desfeita e, mesmo que houvesse separação de corpos, ambos deveriam permanecer sem casar ou poderiam reatar os laços (1Co 7.10-11).[9]

3) A Cláusula de Exceção em Mateus 5.32 e 19.9
 Vejamos a declaração de Jesus em Mateus 5.32 e 19.9[10]:

Eu, porém, vos digo que qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa de prostituição, faz que ela cometa adultério, e qualquer que casar com a repudiada comete adultério.

Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério. 
A exceção que Mateus nos apresenta é “exceto em caso de porneia” (παρεκτςλόγου πορνείας – Mt 5.32; μ π πορνεί  Mt 19.9). A tradução de porneia pode ser prostituição, fornicação, imoralidade sexual, ou relações sexuais ilícitas de um modo geral, inclusive adultério. Em caso de porneia, portanto, haveria a liberação para a separação, ou seja, um caso de exceção para a proibição do divórcio. Contudo, é importante observar que todos os Sinóticos registram o mesmo dito de Jesus, entretanto, apenas Mateus inclui a cláusula de exceção, o que revela um interesse especial dos judeus pelo tema.

Muitos cristãos, ao longo da história, divergiram a respeito da interpretação correta de Mateus 5.32 e 19.9. Entre os pais da igreja, por exemplo, verificamos a disputa:
Em todos os períodos da história da doutrina cristã tem havido divergência tem havido divergência de opinião dentro da Igreja com relação à aplicação prática das palavras de Jesus acerca do adultério, divórcio e novo casamento. Essas divergências tomaram uma forma fixa nos ramos Oriental e Ocidental da Igreja Católica. O primeiro adota a tese mais branda, e permite novo casamento da parte inocente... (O segundo nega-o). 

Não obstante a divergência, “a tese da indissolubilidade absoluta fora defendida e proclamada nos concílios, sobretudo a partir do século VIII; e que, a partir do século XII, Graeianno e Pedro Lombardo decidem que o divórcio é proibido.”[11]

Ainda hoje, o Catecismo da Igreja Católica defende a indissolubilidade do casamento para os cristãos batizados. Contudo, um dos seus parágrafos reza sobre a nulidade do casamento, abrindo precedente para o “divórcio” em casos em que o casamento não pode ser considerado como sendo válido. 

Contrapondo-se à Igreja Católica, os teólogos reformados de língua inglesa defenderam a tese de que o divórcio seria permitido em conformidade com o que regem os textos de exceção (embora muitas vezes fossem além): Mateus 5.32, 19.9; 1Co 7.15. De modo geral, afirmavam que, em caso de divórcio, a parte inocente ficaria livre para um novo matrimônio.

No bojo da polêmica, também há muitas divergências a respeito de quem poderia ou não poderia casar novamente. Uns dizem que a parte inocente apenas estaria livre para casar. Outros afirmam que ambos. Também há aqueles que proíbem o segundo casamento em qualquer situação. Essa é uma posição pouco popular, mas tem adeptos entre protestantes. Admite-se a possibilidade do divórcio, mas não de um novo casamento. Segundo eles, o divórcio pode acontecer em caso de comportamento sexual ilícito, mas de maneira alguma permite que o divorciado case novamente. Alguns apresentam a seguinte base exegética para a posição: a cláusula de exceção em Mateus 5.32 2 19.9, segundo eles, se refere apenas à oração que a precede, ou seja, à oração condicional (prótase) - qualquer que repudiar sua mulher -, continuando o que segue sendo verdade para quem se divorcia, mesmo quando a mulher pratica porneia, ou seja: o homem pode até repudiar a esposa que praticou uma relação sexual ilícita, mas, se casar com outra, adultera.[12]

Champlin[13], por sua vez, taxa como legalista esse tipo de interpretação: “Essa idéia é outra forma de legalismo, fabricação humana. Para os judeus, o divórcio era o fim real do matrimônio. Não teriam compreendido de forma alguma as palavras de Jesus se lhes tivesse falado sobre outro tipo de divórcio”. Duty[14] concorda, afirmando que
todos os usos da palavra divórcio na Bíblia dão seu significado como sendo dissolução do casamento. [...] Jesus não teria usado a palavra “repudiar” se pretendesse dizer apenas “separação”. Ele empregou o mesmo termo da lei, “repudiar”, que Moisés empregou na regulamentação do divórcio, e incorporou-o à legislação do Novo Testamento. 

Para Duty, Jesus não poderia ter em mente outra coisa ao falar do divórcio, senão a completa dissolução dos laços conjugais.

O debate continua atual. Embora tenhamos apresentado algumas das dificuldades que envolvem a interpretação da cláusula de exceção, nosso objetivo é limitado: apresentar algumas das interpretações possíveis para porneia. Estamos longe de resolver as diversas questões que circundam esse assunto. Portanto, interessa-nos, agora, concentrar-nos em nosso objetivo.  

4) Principais Interpretações de Porneia
a) Adultério
A interpretação de porneia como sendo adultério teve seu lugar garantido, ao longo da história. Esta é a posição protestante clássica: em caso de adultério, o divórcio seria permitido, e a parte inocente estaria livre para novo matrimônio. 

A própria Confissão de Fé de Westminster revela essa postura:
O adultério ou fornicação cometida depois de um contrato, sendo descoberto antes do casamento, dá à parte inocente justo motivo de dissolver o contrato; no caso de adultério depois do casamento, à parte inocente é lícito propor divórcio, e depois de obter o divórcio casar com outrem, como se a parte infiel fosse morta (Cap. XXIV, V, CFW).

Charles Spurgeon também defendia o divórcio em caso de adultério: “O casamento é para toda a vida e não pode ser rompido a não ser pela prática do grande crime que corta esse laço [...]. As pessoas que se casam estão, perante Deus, casadas para o resto da vida, com apenas uma exceção: a do adultério comprovado”.[15]

Outro bom exemplo é o de Lloyd Jones que, interpretando a cláusula de exceção, afirma que:
“Só existe uma razão legítima para o divórcio – aquilo que é chamado aqui de relações sexuais ilícitas. [...] Só existe um motivo para o divórcio. Sim, há um motivo; mas somente um. E esse motivo é a infidelidade conjugal por parte de qualquer dos cônjuges. Esse termo “relações sexuais ilícitas” é inclusivo, e realmente significa infidelidade da parte de um dos cônjuges”.

Lopes[16], por sua vez, reformado e ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil, em obra recente, parece interpretar porneia como adultério e admite a solubilidade do casamento em caso de infidelidade conjugal, alegando que tal coisa rompe a aliança entre o casal e liberta a parte inocente para um novo relacionamento:
O ensino é que o divórcio só é lícito se houver adultério de uma das partes. Os que se divorciam por outros motivos, se casarem outra vez, cometem adultério, e quem casar com os divorciados também comete adultério, diz o Senhor (cf. Mt 5.23; 19.9; Mc 10.11; Lc 16.10). O ensino de Jesus é este, qualquer separação exceto por adultério, torna um novo casamento em adultério, além de se constituir em si mesmo uma desobediência clara à ordem divina “aquilo que Deus ajuntou, não o separe o homem.

Algumas objeções têm sido levantadas contra essa opção interpretativa. Dentre elas, geralmente é citado o emprego das palavras em Mateus 5.32 e 19.9. Jesus, na cláusula de exceção, utiliza o termo porneia em vez de moiqueia (adultério). O termo porneiaé mais abrangente do que o termo moiqueia, usado para adultério. Há um indício, portanto, de que porneia não deve significar adultério: se Jesus quisesse referir-se a adultério, teria usado a palavra moiqueia (ou o verbo moiquao), em vez de porneia, como realmente acontece nos Sinóticos, quando ele quer mencionar adultério: Mt 5.32; 19.9; Mc 10.11s e Lc 16.18. Isso leva alguns à conclusão de que o emprego de porneia em Mateus 5.32 e 19.9 não admite o estrito sentido de adultério, como parte da tradição protestante defende.[17]

b) Relações sexuais ilícitas
Alguns intérpretes buscam entender porneia à luz de Levítico 18.6-18, onde encontramos uma lista de relações sexuais ilícitas, especificamente aquelas uniões sexuais entre pessoas com grau de parentesco de consanguinidade. Tradicionalmente, essa interpretação à luz de Levítico 18 ganhou acolhida entre os católicos. Segundo eles, o termo porneia deve ser entendido como uma união ilícita entre parentes próximos, como apresenta Levítico 18.6-18. Ou seja, porneia tem o sentido estrito de uniões sexuais ilícitas em razão do grau proibido de consanguinidade.  

Não seria, portanto, um casamento válido, mas um concubinato. Essa interpretação é reforçada pelo caso da Igreja de Corinto (1Co 5) e pela proibição da prática da prostituição no Livro de Atos (At 15.20,29). No caso de Corinto, por exemplo, o relacionamento do filho com a mulher do pai foi um caso de porneia, que se enquadra em Levítico 18 (Cf. 1Co 5.1, onde a palavra porneia é utilizada). As palavras do padre Miguel Ángel Fuentes demonstram essa posição:
Finalmente, outros autores apontam mais corretamente a interpretação da palavra porneía. Esta não seria a simples fornicação nem o adultério, mas propriamente o estado de concubinato. O termo rabínico empregado por Cristo teria sido zenut, que designa a união ilegítima de concubinato [...]. Em tal caso, é evidente que não apenas é lícita a separação, como também obrigatória, já que não há matrimônio, mas união ilegal. Esta explicação é reforçada quando se considera que São Paulo, em sua carta aos Coríntios, qualifica a união estável incestuosa daquele que se casou com sua madrasta como porneía. A ela também teria se referido o Concílio de Jerusalém, ao exigir que os fiéis se abstivessem da porneía, ou seja, das uniões ilegais ainda que estáveis. Esta última é, talvez, a mais plausível das interpretações e é sustentada por autores como Cornely, Prat, Borsiven, Danieli, McKenzie, como também algumas versões da Bíblia.

Como é possível observar, para esses intérpretes, Jesus não apenas permite que a união fosse desfeita, mas à luz de Levítico 18, torna-se um imperativo. 

Contudo, os que aderem a essa posição geralmente identificam porneia apenas com o pecado que envolve graus proibidos de consanguinidade, ou seja, relação sexual entre parentes próximos. Contudo, Levítico 18 também cita pecados sexuais de outros tipos. Em Levítico 18. 20, por exemplo, há menção a respeito do pecado de adultério: “Nem te deitarás com a mulher de teu próximo para cópula, para te contaminares com ela”. Depois, em Levítico 18.22, apresenta outra relação sexual ilícita, o homossexualismo: “Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é;”. 

Parece coerente, de fato, interpretar porneia como uniões sexuais ilícitas entre parentes próximos, à luz de Levítico 18:6-18. Contudo, também é possível incluir no sentido de porneia os demais pecados sexuais que aparecem na lista de Levítico 18, como o adultério e o homossexualismo. 

Sumarizando essa maneira de interpretar porneia, podemos dizer que o sentido do termo, tal como empregado por Jesus, deve ser interpretado à luz do texto de Levítico 18 e, por conseguinte, deve ser entendido como união sexual entre parentes próximos.  
c) Relações sexuais antes do casamento
O Antigo Testamento revela que, logo depois de assumir o compromisso matrimonial, o homem poderia separar-se da mulher se descobrisse que ela não mais era virgem. Esse seria o caso de porneia a que Jesus se refere em Mateus 5.32 e 19.9. Uma audiência judaica entenderia essa exceção à proibição do divórcio. No contexto do Antigo Testamento, quando isso acontecia, dois procedimentos poderiam ser tomados: (i) Poderia haver um litígio para apurar o caso, um julgamento formal. Conforme Dt 22.13-21, se a mulher fosse encontrada inocente (se de fato fosse virgem), o homem deveria pagar uma multa ao pai da esposa e não poderia repudiá-la jamais. No entanto, se a mulher fosse achada culpada, seria apedrejada; (ii) Se não houvesse litígio (se o marido quisesse separar-se da mulher sem expô-la ao sacrifício, por exemplo), poderia apenas dar uma carta de divórcio e despedir a mulher (Cf. Dt 24.1-4). 

Essa interpretação encontra grande amparo na história de José e Maria, apresentada por Mateus num contexto anterior à discussão entre Jesus e os fariseus a respeito do casamento (Cf. Mateus 1.18-20). Mesmo ainda não tendo relações sexuais, Maria havia sido desposada, e Mateus os chama de marido (aner) e esposa (gunaika), embora fossem apenas noivos. Conforme a lei judaica, o noivado ganhava status de casamento, mesmo que o casamento em si ainda não tivesse sido consumado. Sabendo que Maria estava grávida, José desejou em silêncio deixá-la (a palavra grega é apoluo, a mesma usada em Mateus 5.32 e 19.9 e em outros lugares para divórcio). Mateus, que escreveu o evangelho, retrata José como homem justo, mesmo em sua decisão de deixar Maria (Cf. Mt 1.19), demonstrando que José seguia a legislação da lei para casos como aquele que imaginava estar acontecendo (Cf. Dt 22 e 24). 

Portanto, os que seguem essa interpretação, geralmente afirmam:
Maria era desposada (Grego: mnesteuo) com José e não casada(gameo). É para esse caso especial, e apenas nesse caso dos Judeus, que Jesus está se referindo, porque o casamento não tinha se consumado. Nesse caso, o pecado é fornicação que quebraria o pacto do "esposamento" e não de casamento.[18]

Essa interpretação prevê um contexto bastante judaico da exceção à proibição do divórcio. Por essa razão, provavelmente, é que Marcos e Lucas não incorporam a cláusula de exceção, mas apenas a proibição expressa do divórcio: Mc 10.11-12 e Lc 16.18. 

Considerações Finais
Eis algumas das nossas considerações, além das que mencionamos supra, a respeito do assunto:

1) Reconhecemos a veracidade da cláusula de exceção em Mateus 5.32 e 19.9. Há uma exceção para a proibição do divórcio. 

2) Eis o contexto de Mateus 19: Na discussão com Jesus, os judeus perguntaram se era lícito o divórcio “por qualquer motivo” (Mt 19.3). Jesus menciona o propósito primevo do casamento e deixa clara a proibição para a separação (Mt 19.4-6). Entendendo a proibição, os judeus perguntam por que, então, Moisés permitiu o divórcio (Mt 19.7). Jesus explica que não fora esse o propósito original, mas que a permissão fora uma regulamentação necessária em razão da dureza dos corações dos homens (Mt 19.8). Em seguida, Jesus apresenta seu ensino em contraste com o que os judeus pensavam a respeito do divórcio permitido por Moisés: “Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério” (Mt 19.9). 

3) Jesus proíbe o divórcio, mas concede a permissão apenas quando ocorrer porneia (Mt 5.32 e 19.9). É difícil negar que Jesus coloca o caso de porneia como uma exceção à proibição do divórcio.

4) Os judeus entendiam que a carta de divórcio de fato anularia o casamento e concedia permissão para um novo casamento. Isso é fato. O problema era que eles queriam dar carta de divórcio por qualquer razão. Jesus, então, apresenta um motivo único em que é possível dar carta de divórcio e anular o casamento: em caso de porneia. Se Jesus ensinou que, em caso de porneia, se poderia dar carta de divórcio, então, por consequência, o casamento seria legalmente anulado e, logicamente, se poderia casar novamente. O emprego da palavra repudiar (divorciar), no Antigo Testamento, de fato significava a dissolução de um casamento. Jesus não empregou a palavra com um sentido diferente. 

5) Os discípulos acharam o casamento um fardo pesado demais porque só haveria uma única exceção para o divórcio: porneia. Eles estavam acostumados a infringir a lei e a divorciar-se por uma série de motivos. A declaração de Jesus assustou ainda mais pelo fato de explicar que estaria em adultério quem se separasse e casasse novamente por qualquer motivo que não fosse porneia

6) Porneia pode ser qualquer pecado sexual mencionado na discussão supra, inclusive adultério. A razão de Jesus não ter usado moiqueia se explica pelo fato de que ele não queria falar apenas de adultério (mas também de adultério), mas também de outros pecados sexuais. Portanto, é possível que o caráter lato da palavra porneia abarque os mais diversos pecados sexuais, como adultério, aqueles pecados mencionados em Levítico 18 e a fornicação ocorrida no período do noivado, antes da consumação do casamento (veja a discussão supra). Nesses casos, o divórcio e o novo casamento eram permitidos entre os judeus. E Jesus mantém a permissão, quando afirmou “exceto em caso de porneia”. 

7) Impotência sexual (como queria Lutero), feiura, doença de qualquer tipo, chatice, divergências de opinião, preguiça... Nada disso dá permissão para o divórcio. Apenas porneia

8) Casos de porneia não necessariamente devem conduzir à separação. O divórcio não foi e não é um mandamento, mas uma permissão por causa da imperfeição do homem. Em caso de infidelidade conjugal, o cônjuge deve perdoar a esposa (ou, se for o caso, a esposa perdoar o marido) arrependida e pode também optar pela reconciliação. 

9) O estudo sobre esse tema deve nos levar à humildade. Devemos sempre estar abertos para compreender melhor as Escrituras. É necessário que respeitemos as posições contrárias, visto que a interpretação em torno da cláusula de exceção é árdua e o debate já dura quase dois milênios. A história nos mostra que podemos nos posicionar, mas não há razão para promovermos dissenções em igrejas por causa desse assunto. Devemos respeitar aqueles que interpretam Mateus 5.32 e 19.9 de maneira diferente da nossa. Se tivermos uma posição mais próxima daquela adotada pela Igreja Católica, por exemplo, necessitamos deixar a nossa igreja e nos tornarmos católicos? É claro que não! 

10) Embora não seja objeto desse estudo, reconhecemos que 1Coríntios 7.15 trata de casamentos mistos e, nesse caso, há uma permissão para divórcio quando o cônjuge descrente não consentir em viver com o crente. Com a permissão para o divórcio, vem também a permissão para um novo casamento.




[1] Em grego, a expressão “não o separe” (μ χωριζέτω ) é imperativa. É uma ordem divina: quem está casado não se separe! A expressão grega, construída por advérbio de negação e verbo no imperativo presente, pode ser entendida como uma ordem para que não continuassem a fazer aquilo que estavam costumeiramente praticando, ou seja, uma ordem para que cessassem a prática do divórcio.
[2] Paulo está falando para cônjuges crentes. Isso é notório, pois, posteriormente, passa a tratar de casamentos em que um cônjuge apenas é crente.
[3] À época de Jesus, o rabino Hillel ensinava que o casamento poderia ser desfeito por qualquer motivo banal. A escola de Shammai, por sua vez, afirmava que uma união poderia ser dissolvida em caso de relacionamento sexual pecaminoso. A reação dos discípulos demonstra que Jesus estava anunciando um padrão que rompia radicalmente com a prática da época.
[4] Bíblia Vida Nova, p.9.
[5] Mateus 5:31-32: Também foi dito: Qualquer que deixar sua mulher, dê-lhe carta de desquite.
Eu, porém, vos digo que qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa de prostituição, faz que ela cometa adultério, e qualquer que casar com a repudiada comete adultério
.
[6] Em grego:  γ δ λέγω.
[7] MIGUEL ÁNGEL FUENTES. “EM CASO DE ADULTÉRIO, CRISTO ADMITIU O DIVÓRCIO?” DISPONÍVEL EM: HTTP://WWW.VERITATIS.COM.BR/DIREITO-CANONICO/125-DIR-MATRIMONIAL/727-EM-CASO-DE-ADULTERIO-CRISTO-ADMITIU-O-DIVORCIO
[8] JONES. Estudos no Sermão do Monte.  São José dos Campos: Editora Fiel, 1999, pg. 241.
[9] 1 Coríntios 7:10-11: Todavia, aos casados mando, não eu mas o Senhor, que a mulher não se aparte do marido. Se, porém, se apartar, que fique sem casar, ou que se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher.
[10] O texto bíblico é da Almeida Corrigida Fiel. A palavra grega porneia foi traduzida em Mt 5.32 porprostituição, e em Mt 19.9 por fornicação. Não julgamos coerente, do ponto de vista tradutológico, tal variação na tradução. A NVI traduz porneia por imoralidade sexual.
[11] CAHALI, Yussef Said. Divórcio e Separação. 2003Disponível em: http://pt.scribd.com/doc/8215399/divorcio-separacao
 [12] Cf.PINTO, Carlos Osvaldo. O Divórcio. Revista Enfoque, Atibaia, nov. 2000. p. 7
[13] CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Guaratinguetá: A Voz Bíblica, s/d, p.313.
[14] DUTY, Guy. Divórcio e Novo Casamento. Belo Horizonte: Editora Betânia, 1979, p.40
[15] DUTY, Guy. Divórcio e Novo Casamento. Belo Horizonte: Editora Betânia, 1979, p.111
[16] LOPES, Augustus Nicodemus  e SCHALKWIJK, Minka. A Bíblia e a sua família: exposições bíblicas sobre o casamento, família e filhos. São Paulo: Cultura Cristã, 2001, pg.172.
[17] Himitian, por exemplo, afirma que, “de acordo com o sentido do texto e de outros textos comparativos, a palavra fornicação em Mateus 19.9 e 5.32 não tem o significado de adultério”. HIMITIAN, Jorge. Divórcio e Novo Casamento. Disponível em: www.odiscipulo.com.
[18] Divorce and Remarriage is the same as continuous adultery. Disponível em: http://www.baptistlink.com/creationists/remarriage.htm