12 de janeiro de 2010

A conquista da Terra de Canaã: Teorias e Debate Atual

Por: Danilo Moraes


Introdução

Dentro da pesquisa do Antigo Testamento, especificamente o período dos juízes e a conquista de Canaã por Israel, historiadores e teólogos têm apresentado inúmeras teorias procurando esclarecer o texto bíblico e algumas vezes até rechaçam qualquer opinião contrária a sua “teoria”. Minha proposta neste trabalho é apenas apresentar algumas dessas teorias, me esquivando de impor qualquer juízo. Tal procedimento satisfatoriamente poderá ser feito em uma outra ocasião.


1. Teoria da Conquista

Israel invade a terra de Canaã, vindo da Transjordânia, pelo final do século XIII a.C. As tribos lutam unidas e, fazendo uma campanha militar em três fases, dirigidas ao centro, sul e norte, ocupam o país, destruindo seus habitantes, no espaço de uns 25 anos.

Esta é a visão de Js 1-12 e a que dominou no mundo judaico e cristão. A síntese de Js 10. 40-43 diz o seguinte: "Assim, feriu Josué toda aquela terra, a região montanhosa, o Neguebe, as campinas, as descidas das águas e todos os seus reis; destruiu tudo o que tinha fôlego, sem deixar nem sequer um, como ordenara o SENHOR, Deus de Israel. Feriu-os Josué desde Cades-Barnéia até Gaza, como também toda a terra de Gósen até Gibeão. E, de uma vez, tomou Josué todos estes reis e as suas terras, porquanto o SENHOR, Deus de Israel, pelejava por Israel. Então, Josué, e todo o Israel com ele, voltou ao arraial em Gilgal”.

Alguns defendem esta teoria, baseados na evidência arqueológica como William Foxwell Albright, George Ernest Wright, Yehezkel Kaufmann, Nelson Glueck, Yigael Yadin, Abraham Malamat, John Bright, este último moderadamente.

A arqueologia atesta:

a) Uma ampla destruição de cidades cananéias no final do século XIII a.C. Do norte para o sul, são essas as cidades: Hazor, Meguido, Succoth, Betel, Bete-Seã, Ashdod, Laquis, Eglom e Debir.

Destas 9 cidades, 4 são ditas especificamente como destruídas por Josué:

Hazor: Js 11,10-11

Laquis: Js 10,31-33

Eglom: Js 10,34-35

Debir: Js 10,38-39

b) A não destruição de cidades que os textos confirmam como não tendo sido tomadas por Josué:

Gibeon: Js 9

Taanaque: Jz 1,27

Siquém: Js 24

Jerusalém: Js 15,63; 2Sm 5,6-9

Bete-Seã: Jz 1,27-28

Gezer: Js 10,33

c) A reocupação das cidades destruídas foi homogênea e pode ser relacionada com a ocupação israelita que se seguiu à conquista. Além do que tal ocupação mostra, na sua maior parte, um empobrecimento técnico, típico do assentamento de populações seminômades (o tipo de cerâmica, de construções, de utensílios etc).

d) Localidades que estavam abandonadas há muito tempo são ocupadas nova-mente no século XIII a.C., como: Dor, Gibeah, Bersabéia, Silo, Ai, Mispa, Bet-Zur.

Ora, em nenhuma destas evidências aparece qualquer inscrição dizendo tratar-se de Israel. Mas como nenhum outro povo ocupou tal região neste período, quem poderia ser senão Israel?


2. A Teoria da Instalação Pacífica


Modelo defendido por Albrecht Alt (1925;1939), Martin Noth (1940;1950), Manfred Weippert, Siegfried Hermann, José Alberto Soggin, Yohanan Aharoni e outros. Os relatos de conquista de Josué são etiológicos e Josué não passou de um chefe local efraimita. As tribos foram ocupando os espaços vazios entre as cidades-estado cananéias, sem um conflito generalizado e organizado. Os conflitos aconteciam quando um clã invadia o território de uma cidade-estado.

Tal teoria baseia-se na análise crítica dos textos bíblicos e interpreta à sua luz os dados arqueológicos. Apóia-se também nas tradições patriarcais do Gênesis: os patriarcas viviam, mais ou menos pacificamente, nas proximidades das cidades cananéias.

Defende uma entrada diferenciada na Palestina, para as tribos israelitas: êxodos diferentes para os vários grupos, pelo menos, para o sul e para o norte. Ligas anfictiônicas : primeiro duas (Noth): uma de clãs do sul (clãs posteriormente assimilados a Judá) e outra de tribos do norte. Depois sua união, antes da monarquia, em doze tribos. Noth liga os hebreus aos hapiru.

“Para Noth, esses “juízes menores” (Jz 10.1-5; 12.7-15) eram líderes constituídos por uma confederação tribal (uma “anfictionia”) e tinham principalmente obrigações sagradas num santuário central. Quando essa suposta lista de juízes menores foi combinada com as narrativas de heróis tribais, então os heróis acabaram também conhecidos como ‘juízes’”.


3. A Teoria da Revolta

A teoria da revolta foi defendida primeiramente por George Mendenhall, com um artigo chamado The Hebrew Conquest of Palestine, publicado em Biblical Archaeologist 25, pp. 66-87, 1962. O artigo já começa com uma constatação, que hoje se tornou lugar comum em congressos ou salas de aula: "Não existe problema da história bíblica que seja mais difícil do que a reconstrução do processo histórico pelo qual as Doze Tribos do antigo Israel se estabeleceram na Palestina e norte da Transjordânia”.

De fato, a narrativa bíblica enfatiza os poderosos atos de Iahweh que liberta o povo do Egito, o conduz pelo deserto e lhe dá a terra, informando-nos, deste modo, sobre a visão e os objetivos teológicos dos narradores de séculos depois, mas ocultando-nos as circunstâncias econômicas, sociais e políticas em que se deu o surgimento de Israel.

Frente a isso, os pesquisadores sempre utilizaram modelos ideais para descrever as origens de Israel, como o fez Martin Noth com a tese da anfictionia, importada do mundo grego. O que George Mendenhall propôs com o seu artigo foi apresentar um novo modelo ideal em substituição a modelos que não mais se sustentavam, sugerindo uma linha de pesquisa que levasse em conta elementos que até então não tinham sido considerados.

G. Mendenhall começa descrevendo os dois modelos existentes até então para a entrada na terra de Canaã, o da conquista militar e o da infiltração pacífica de seminômades e apresenta os três pressupostos presentes em ambos:

a) as doze tribos entram na Palestina vindo de outro lugar na época da "conquista".

b) as tribos israelitas eram nômades ou seminômades que tomam posse da terra e se sedentarizam.

c) a solidariedade das doze tribos é do tipo étnico, sendo a relação de parentesco seu traço fundamental, caracterizando-as, inclusive, em contraste com os cananeus.

Ora, continua Mendenhall, o primeiro e o terceiro pressupostos até que podem ser aceitos, mas a suposição de que os israelitas primitivos eram nômades, entretanto, está inteiramente em contraste com as evidências bíblicas e extra-bíblicas, e é aqui a reconstrução de uma alternativa deve começar.

A seguir, Mendenhall critica a visão romântica do modo de vida dos beduínos, erroneamente vistos como nômades contrastando com os sedentários das cidades, que foi assumida sem criticidade pelos pesquisadores bíblicos e usada como modelo para o Israel primitivo. Mostra que os próprios relatos bíblicos jamais colocam os antepassados de Israel como inteiramente nômades, como, por exemplo, Jacó e Labão, Jacó e os filhos, onde há sempre uma parte do grupo que é sedentária. Igualmente critica a noção de tribo como um modo de organização social próprio de nômades, mostrando que tribos podem ser parte ou estar em relação com povoados e cidades.

Aproximando o conceito de hebreu ao de Hab/piru, e utilizando as cartas de Tell el-Amarna, Mendenhall procura demonstrar que ninguém podia nascer hebreu já que este termo indica uma situação de ruptura de pessoas e/ou grupos com a fortemente estratificada sociedade das cidades cananéias. E conclui que não houve uma real conquista da Palestina. O que aconteceu pode ser sumariado, do ponto de vista de um historiador interessado somente nos processos sócio-políticos, como uma revolta camponesa contra a espessa rede de cidades-estado cananéias.

Estes camponeses revoltados contra o domínio das cidades cananéias se organizam e conquistam a Palestina, diz Mendenhall, porque uma motivação e um movimento religioso criou uma solidariedade entre um grande grupo de unidades sociais preexistentes, tornando-os capazes de desafiar e vencer o complexo mal estruturado de cidades que dominavam a Palestina e a Síria no final da Idade do Bronze. Esta motivação religiosa é a fé javista que transcende a religião tribal, e que funciona como um poderoso mecanismo de coesão social, muito acima de fatores sociais e políticos... Por isso a tradição da aliança é tão importante na tradição bíblica, pois esta é o símbolo formal através da qual a solidariedade era tornada funcional.

A ênfase na mesma herança tribal, através dos patriarcas, e na identificação de Iahweh com o "deus dos pais", pode ser creditada à teologia dos autores da época da monarquia e do pós-exílio que deram motivações políticas a uma unidade que foi criada pelo fator religioso.

Alguns anos mais tarde, Norman K. Gottwald publicou seu polêmico livro The Tribes of Yahweh: A Sociology of the Religion of Liberated Israel, 1250-1050 B.C.E., Maryknoll, New York, Orbis Books, 1979, no qual retoma a tese de G. Mendenhall e avança por quase mil páginas em favor de uma revolta camponesa ou processo de retribalização que explicaria as origens de Israel.

Ele diz que até recentemente a pesquisa sobre o Israel primitivo era dominada por três idéias básicas:

a) o pressuposto de mudança social ocorrida no deslocamento de populações, ou seja: um hiato sócio-político em Canaã teria ocorrido como resultado da substituição demográfica ou étnica de um grupo por outro, seja por imigração seja por conquista militar.

b) o pressuposto da criatividade do povo do deserto em iniciar mudanças sociais em regiões sedentárias, ou seja, Israel teria ocupado a terra como recurso para realizar a passagem do seminomadismo para a sedentarização, resultando numa aculturação sócio-política.

c) o pressuposto de mudança social produzida por características especiais de um grupo ou por elementos culturais de destaque, ou seja, a partir do momento em que o judaísmo é lido a partir da perspectiva do judaísmo tardio e do cristianismo, o javismo é visto como fonte isolada e agente de mudança na emergência de Israel.


A partir de tais constatações, Gottwald propõe um modelo social para o Israel primitivo que segue as seguintes linhas: O Israel primitivo era um agrupamento de povos cananeus rebeldes e dissidentes, que lentamente se ajuntavam e se firmavam caracterizando-se por uma forma anti-estatal de organização social com liderança descentralizada. Esse desligar-se da forma de organização social da cidade-estado tomou a forma de um movimento de 'retribalização' entre agricultores e pastores organizados em famílias ampliadas economicamente auto-suficientes com acesso igual aos recursos básicos. A religião de Israel, que tinha seus fundamentos intelectuais e cultuais na religião do antigo Oriente Médio cananeu, era idiossincrática e mutável, ou seja, um ser divino integrado existia para um integrado e igualitário povo estruturado. Israel tornou-se aquele segmento de Canaã que se separou soberanamente de outro segmento de Canaã envolvendo-se na 'política de base' (esquerda) dos habitantes dos povoados organizados de forma tribal contra uma 'política de elite' (direita) das hierarquizadas cidades estados .

Assim, Gottwald vê o tribalismo israelita como uma forma escolhida por pessoas que rejeitaram conscientemente a centralização do poder cananeu e se organizaram em um sistema descentralizado, onde as funções políticas ou eram partilhadas por vários membros do grupo ou assumiam um caráter temporário. O tribalismo israelita foi uma revolução social consciente, uma guerra civil, se quisermos, que dividiu e opôs grupos que previamente viviam organizados em cidades-estado cananéias. E Gottwald termina seu texto dizendo que o modelo da retribalização levanta uma série de questões para posterior pesquisa e reflexão teórica.

O contexto histórico que apoiaria a teoria é o seguinte:

Os hicsos conquistam o Egito por volta de 1670 a.C. e o dominam durante um século. Sua capital é Avaris. Mas são expulsos por Amósis (1580-1558 a.C.), faraó da décima oitava dinastia que transforma o Egito na maior potência mundial. A capital volta a Tebas. Tutmósis III, também da décima oitava dinastia, levou o Egito ao auge de seu poder, estendendo seu domínio até o Eufrates.

À décima oitava dinastia pertencem ainda: Amenófis IV (1372-1354 a.C.) - também conhecido como Akhenaton, o faraó do culto a Aton -, que construiu nova capital, Akhetaton, arqueologicamente conhecida como El-Amarna; Tutankhamon, que é o último faraó desta dinastia e que volta ao antigo culto a Amon e traz a capital de novo para Tebas.

A XIX dinastia teve alguns nomes famosos:

a) Ramsés II, o faraó do êxodo

b) Merneptah, seu filho, que cita Israel em estela de 1220 a.C.

Ramsés II é quem fez a aliança de paz com os hititas, deixando um vazio político na Palestina. Sob a XX dinastia, a última do reino novo, o Egito vai progressivamente perdendo toda a sua influência na Ásia.

Vale citar aqui um longo trecho de J. G. Echegaray, O Crescente Fértil e a Bíblia: “Em 1286 a.C. aconteceu a célebre batalha de Cades, espetacular confrontação militar de Ramsés II com seu rival hitita Muwatalli. O exército egípcio compunha-se de quatro divisões que levavam nomes religiosos. A primeira, chamada divisão de Amon, na qual ia o faraó, induzida por um deficiente serviço de ‘inteligência’ que garantia que as tropas hititas ainda estavam longe, acampou ao norte da cidade de Cades. Atrás, a uma grande distância, aproximavam-se escalonadamente as divisões Rá, Ptah e Suteh. Então o exército hitita, ocultando-se, rodeou a cidade pelo sul e, saindo de um bosque, atacou a divisão Rá que acabava de atravessar o arroio Sabtuna (hoje El-Mukadiyeh). A divisão foi desarticulada e posta em fuga. Alguns se refugiaram no acampamento de Ramsés, que foi objeto de ataque imediato. Embora a divisão Amon se defendesse valentemente com seu rei à frente, não teria podido resistir se não fosse a intervenção inesperada de um corpo expedicionário de cavaleiros ‘amorreus’ procedentes da costa, que vinham para se unir ao exército egípcio na qualidade de aliados. A chegada pouco depois da divisão Ptah pôs o exército hitita em fuga, que teve de se retirar às pressas e se refugiar na cidade de Cades. A última divisão egípcia, Suteh, que ainda não atravessara o Orontes, não chegou a intervir na contenda. À vista dos acontecimentos, Ramsés II desistiu de tomar a cidade, abandoando sua missão de pacificar o país, deixando quase inteiro o exército inimigo encerrado na fortaleza, retirou-se ordenadamente para a Palestina. Não tinha sido uma verdadeira vitória, mas também não podia ser contado como uma derrota; o faraó, porém, a fez passar por um ressonante triunfo, que mandou gravar nas paredes dos templos de Tebas. A batalha na realidade fora um confronto entre as duas maiores potências do mundo. O exército egípcio era composto por cerca de 25.000 homens, mas só tinha 1.500 carros de combate. Pelo contrário, o exército hitita possuía 3.500 carros de combate”

Os hicsos invadem o Egito e a Palestina, ocupando na região de Canaã, como bases centrais, Jericó e Siquém.

Bem, os hicsos introduziram na Palestina o uso do carro de combate, modificando todas as táticas de guerra então em uso. As populações locais (cananéias) tiveram que reforçar a defesa de suas cidades e abrigar em seu interior as populações mais atacadas pelos invasores.

Para afastar os hicsos, os egípcios da XVIII dinastia davam condições de defesa à Palestina, uma espécie de "feudo" seu: interesses estratégicos, comerciais (produtos do Líbano e rotas caravaneiras) etc levaram o Egito a estabelecer guarnições na Palestina e a cobrar tributo dos senhores, príncipes das cidades-estado cananéias.

As populações de baixa condição, vivendo ao abrigo das cidades e de seus exércitos locais, estava assim submetida ao príncipe cananeu, que estava submetido ao faraó egípcio. A espoliação se dava em dois níveis.

Quando o controle egípcio era menor, as cidades cananéias diminuíam ou interrompiam o pagamento do tributo, procuravam aumentar seus domínios a expensas de seus vizinhos e rivais etc. Mas a liberdade das cidades não era repassada para a população marginalizada!

Assim é descrita a situação nas cartas de Tell el-Amarna, escritas pelos governantes das cidades cananéias à corte egípcia de Amenófis III e de seu filho Amenófis IV (são 377 cartas escritas em acádico vulgar, com muitos cananeísmos, descobertas a partir de 1887).

Nos conflitos entre as cidades cananéias, seus governantes se acusam, nas cartas, da ajuda, feita pelo inimigo, aos hapiru: estes estariam conquistando cidades em Canaã e provocando revoltas. Os hapiru revoltavam-se contra seus opressores cananeus e libertavam-se de seu controle.

Quando os israelitas do grupo de Moisés chegam a Canaã esta é a situação: confrontos generalizados entre as cidades, confronto entre os marginalizados e as cidades, vazio de poder egípcio porque Ramsés II não conseguiu vencer os hititas e foi obrigado a fazer um acordo com este povo da Ásia Menor.

Unidos pela esperança javista os recém-chegados juntam-se aos revoltosos, formando com eles uma mesma identidade social. Constituem um "governo" tribal, uma aliança tribal, e ocupam as regiões montanhosas, onde os cananeus, senhores das cidades, tinham perdido o controle.

Realmente, o livro de Gottwald suscitou uma grande polêmica e polarizou as atenções dos especialistas durante muito tempo. O modelo da retribalização ou da revolta camponesa passou a ser citado como uma alternativa bem mais interessante do que os modelos anteriores e fez surgir outras tentativas de explicação das origens de Israel. Muitas críticas também foram formuladas a Gottwald, sendo a de maior consistência a do dinamarquês Niels Peter Lemche, que em Early Israel. Anthropological and Historical Studies on the Israelite Society before the Monarchy, analisa longamente os fundamentos do modelo de Gottwald.

Segundo Lemche, Gottwald fundamenta suas teorias no estudo de Morton Fried, The Evolution of Political Society, New York, Random, 1967, mas faz um uso eclético de outras teorias e autores, de uma maneira que dificilmente qualquer um deles aprovaria. Mas a birra principal de Lemche com estes autores e suas teorias é que, segundo ele, os modelos derivados da corrente antropológica do "evolucionismo cultural" desconsideram a variável chamada Homem (enquanto indivíduo livre e imprevisível em suas ações) por não ser controlável.

Entretanto, um dos problemas do ecletismo de Gottwald é que embora se reporte às vezes a Marx, faz uma leitura do Israel pré-monárquico segundo a tradição durkheimiana. Nas palavras de A. D. H. Mayes: “Existem, porém, boas razões, para ver Gottwald neste contexto [durkheimiano] antes do que na tradição de conflito a que pertence Marx. As características distintivas da teoria de conflito, que entende a sociedade dentro do quadro da interação de diversas classes ou grupos de status, estão inteiramente ausentes do estudo de Gottwald: nele Israel surge como unidade harmoniosa e indiferenciada. Gottwald adota enfoque funcionalista da sociedade israelita, que tem certamente raízes na teoria social de Durkheim, e enfatiza sua dimensão estrutural sincrônica, antes que sua dimensão histórica diacrônica”.


4. A Teoria da Evolução Pacífica e Gradual


Quanto a esta teoria, vale a pena olharmos alguns autores que procuraram avançar a partir e além de Mendenhall e Gottwald. Como nos lembra R. K. Gnuse, as descobertas arqueológicas dos últimos anos encorajaram os pesquisadores na elaboração de novas maneiras de compreender as origens de Israel. As escavações de localidades tais como Ai, Khirbert Raddana, Shiloh, Tel Quiri, Bet Gala, Izbet Sarta, Tel Qasileh, Tel Isdar, Dan, Arad, Tel Masos, Beer-Sheba, Har Adir, Horvart Harashim, Tel Beit Mirsim, Sasa, Giloh, Horvat ‘Avot, Tel en-Nasbeh, Beth-Zur e Tel el-Fûl, deixaram os arqueólogos impressionados com a continuidade existente entre as cidades cananéias das planícies e os povoados israelitas das colinas. A continuidade está presente, sobretudo na cerâmica, nas técnicas agrícolas, nas construções e nas ferramentas.

O crescente consenso entre os arqueólogos é de que a distinção entre cananeus e israelitas no primeiro período do assentamento na terra é cada vez mais difícil de ser feito, pois estes parecem constituir um só povo. As diferenças entre os dois aparecem apenas mais tarde. Por isso, os arqueólogos começam a falar cada vez mais do processo de formação de Israel como um processo pacífico e gradual, a partir da transformação de parte da sociedade cananéia. A teoria sugere que, de alguma maneira, cananeus gradualmente tornaram-se israelitas, acompanhando transformações políticas e sociais no começo da Idade do Bronze.

Os defensores deste ponto de vista argumentam com o declínio cultural ocorrido no Bronze Antigo, com a deterioração da vida urbana causada pelas campanhas militares egípcias, com a crescente tributação, e, talvez, com mudanças climáticas. Mas o processo de evolução pacífica de onde surgiu Israel é descrito de maneira diferente pelos especialistas, de modo que R. K. Gnuse prefere classificar as teorias em quatro categorias, que são:

a) Retirada pacífica

b) Nomadismo interno

c) Transição ou transformação pacífica

d) Amálgama pacífico.


4.1. Retirada Pacífica


Como defensores de uma retirada pacífica de grupos cananeus das planícies para as regiões montanhosas, R. K. Gnuse cita especialmente Joseph Callaway, David Hopkins, Frank Frick, James Flanagan, Gösta Ahlström e Carol Meyers.

Joseph Callaway foi um dos primeiros a observar nas escavações de Ai e Khirbet Raddana, no território de Efraim, que os habitantes destas pequenas localidades situadas nas montanhas usavam as mesmas técnicas dos cananeus na agricultura, na fabricação de ferramentas, na perfuração de cisternas, na construção de casas e de terraços para a retenção da água da chuva. Isto implica uma continuidade cultural com os cananeus das cidades situadas nos vales e sugere que as pessoas se deslocaram para Ai e Raddana para fugir de possíveis conflitos nos vales. Entre 1200 e 900 a.C. o número de povoados nas montanhas passou de 23 para 114, o que sugere uma significativa retirada.

David Hopkins, por sua vez, em uma avaliação detalhada da agricultura na região montanhosa da Palestina na Idade do Ferro I (1200-900 a.C.), observou que o desenvolvimento social aconteceu junto com a intensificação do cultivo da terra. Para Hopkins, estas pessoas desenvolveram um sistema de colaboração ao nível de clã e de famílias, o que lhes permitia uma integração de culturas agrícolas com a criação de animais, evitando, deste modo, os desastres comuns a que uma monocultura estava sujeita nestas regiões tão instáveis, especialmente em recursos hídricos. Hopkins valorizou mais o sistema cooperativo baseado no parentesco do que o uso de técnicas como terraços, cisternas e o uso do ferro para explicar o sucesso destes assentamentos agrícolas. Para Hopkins, diferentes unidades clânicas e tribais israelitas devem ter surgido a partir de diferentes atividades agrícolas.

Frank Frick acredita que os assentamentos israelitas surgiram após um colapso das cidades cananéias. Esta nova sociedade teria então evoluído de uma 'sociedade segmentária' (época dos Juízes) para uma 'sociedade com chefia' (Saul) e, finalmente, para o 'Estado' (Davi).

James Flanagan também acredita que o Israel pré-davídico surgiu da movimentação de grupos sedentários que deixaram os vales para uma organização mais descentralizada nas montanhas e na Transjordânia, onde eles se dedicaram à agricultura e ao pastoreio.

Gösta Ahlström, entretanto, foi quem desenvolveu mais amplamente este modelo de uma retirada pacífica em vários de seus escritos. Ele trabalha a continuidade entre israelitas e cananeus, evidente na cultura material, e busca reler os textos bíblicos dentro desta lógica. O próprio nome do povo, 'Israel', reflete esta lógica, já que construído com o nome de El, divindade cananéia. Ahlström contesta a tese de Gottwald de uma 'retribalização' ocorrida nas montanhas, já que sua estrutura social de base familiar não corresponde, segundo ele, ao tipo nômade. Nenhuma 'revolta' de camponeses pode ser documentada. Os recursos tecnológicos menores, igualmente, não indicam a chegada de um grupo de pessoas vindas de fora da terra, mas sim a escassez de recursos da área dos assentamentos.Talvez um grupo tenha vindo de Edom e se juntado a estes camponeses, trazendo com eles o culto a Iahweh.

Carol Meyers defende que Israel surgiu nas montanhas após uma violenta praga que devastou os vales. Teria havido um declínio de até 80% da população dos vales, e cidades podem ter sido queimadas para evitar contágio. Nas montanhas, o crescimento populacional - de 23 para 114 povoados - exigiu mais alimento, levando à intensificação da agricultura, agora possível pela construção de cisternas e terraços e isto produziu, no final, Israel.


4.2. Nomadismo Interno


Defensores do nomadismo interno são C. H. J. de Geus, Volkmar Fritz e Israel Finkelstein. Embora admitindo a continuidade entre israelitas e cananeus, estes especialistas defendem uma origem pastoril para os primeiros.

C. H. J. de Geus, antigo defensor das teorias de Mendenhall e Gottwald, propõe que os israelitas eram etnicamente unidos, morando nas montanhas e usando categorias tribais. Eles seriam os hapiru das cartas de Tell el-Amarna, vivendo nas áreas intermediárias entre as cidades e com elas interagindo, experimentando, por isso, uma 'simbiose cultural'. Eles estavam na região há séculos e pertenciam à cultura amorita siro-palestina do Bronze Médio. Quando as cidades sofreram um colapso eles expandiram seu controle.

Volkmar Fritz, antes defensor da idéia de infiltração pacífica de Albrecht Alt, ao escavar no norte do Negev, percebe que a cultura israelita viveu um longo período em contato com a cultura cananéia e deslocou um pouco sua perspectiva. A casa israelita de quatro cômodos significa uma evolução da arquitetura cananéia e a sua familiaridade com a criação de animais domésticos e seus trabalhos em metal e cerâmica mostram que eles não eram verdadeiros nômades, mas que estavam em contato comercial com as culturas das cidades da região. Para Fritz, porém, a arquitetura diferenciada dos povoados israelitas nas montanhas mostra que eles não saíram simplesmente das cidades das planícies, mas que foram proto-israelitas, que, vindos de fora, antes de se sedentarizarem, entraram em contato simbiótico com as culturas citadinas. Ou seja: eles estavam culturalmente próximos dos cananeus, mas eram etnicamente diferentes e trouxeram consigo suas próprias estruturas sociais e sua cultura material. Eles seriam os hapiru ou os shasu dos textos egípcios, que eventualmente deram origem a Israel, Moab e Edom.

Israel Finkelstein é o principal defensor da idéia do 'nomadismo interno'. Talvez resumindo excessivamente seu matizado pensamento, eu diria que, para Finkelstein, os israelitas eram 'nômades internos', gente que vivia na Palestina, por toda a Idade do Bronze, na proximidade das cidades. Com o declínio destas, estes pastores se dedicaram também à agricultura para conseguir cereais e outros alimentos não mais oferecidos pelas cidades. Eles teriam se assentado em grande número na região montanhosa de Efraim e, a partir dali, se espalhado, como defendia Alt, para o norte e para o sul da região. O aumento populacional posterior colocou-os em conflito com populações das planícies até que se chegou à unificação davídica.


4.3. Transição Pacífica


Entre os proponentes de uma transição ou transformação pacífica se destacam o já citado Niels Peter Lemche e mais: William Stiebing, R. Drews, Robert Coote & Keith Whitelam e Rainer Albertz.

Niels Peter Lemche, um dos mais brilhantes “minimalistas” da Escola de Copenhague, acredita que muito pouco pode ser dito das origens de Israel antes do século X a.C. a não ser a percepção de um processo gradual de aumento da população nas montanhas da Palestina. Lemche, assim como outros minimalistas, questiona o uso da Bíblia Hebraica na reconstrução da História de Israel, já que esta é um produto pós-exílico, possivelmente da época helenística. Na verdade, diz Lemche, não há época patriarcal, êxodo, juízes, monarquia unida... Lemche expõe a sua visão no livro de 1998, The Israelites in History and Tradition, p. 74, ao mesmo tempo que procura superá-la com uma nova proposta nas páginas 75-77.

William Stiebing, por outro lado, coloca as mudanças climáticas ocorridas na região do Mediterrâneo entre 1250 e 1200 a.C. como fator fundamental para explicar o declínio da cultura urbana da Grécia Micénica à Palestina. Afugentados pela seca, os sobreviventes da fome que se abateu sobre as cidades foram para as montanhas. Condições climáticas mais favoráveis por volta do ano 1000 a.C. possibilitaram o aumento desta população e à criação do Estado. Israel, portanto, surgiu não pelo simples deslocamento de determinados grupos, mas pelo crescimento populacional tornado possível pelas condições climáticas favoráveis à agricultura.

Robert Drews defende que os 'povos do mar' que invadem a região não eram simples migrantes, mas mercenários treinados e com armamento superior ao dos exércitos locais. Daí o massacre das cidades e o aumento populacional dos habitantes das montanhas, com mudanças, inclusive, em seu comportamento ético, agora mais igualitário. Ele dá pouca importância aos fatores climáticos na explicação dos acontecimentos.

Robert Coote & Keith Whitelam vêem as origens de Israel como parte de um processo de integração milenar entre as regiões das cidades e as regiões das montanhas. Processo que pode ser chamado de 'realinhamento' ou 'transformação', pois nos períodos de prosperidade as regiões das montanhas providenciavam recursos para as cidades dos vales, enquanto que nos momentos das crises elas absorviam as populações que deixavam tais cidades. No surgimento de Israel o colapso do comércio foi o fator mais significativo, segundo estes autores, pois colocou em crise a sobrevivência das cidades e exigiu dos povoados das montanhas uma forma mais eficaz de colaboração e cooperação para a sobrevivência, levando a um aumento populacional significativo. Com o desenvolvimento destas regiões o comércio foi recuperado, promovendo mais tarde o aparecimento do Estado.

Rainer Albertz faz uma espécie de síntese de várias escolas, indo de Albright a Lemche, não propondo uma teoria específica. Albertz fala de 'digressão', processo pelo qual o colapso do comércio internacional forçou os habitantes das cidades a se deslocarem para os povoados das montanhas e aí se desenvolverem. Para tais comunidades o grupo do êxodo trouxe as idéias do deus Iahweh.


4.4. Amálgama Pacífico


Finalmente, a idéia de um amálgama pacífico de diferentes grupos nas regiões montanhosas da Palestina para explicar as origens de Israel tem como defensores especialistas como Baruch Halpern, William Dever, Thomas Thompson e Donald Redford.

Baruch Halpern foi um dos primeiros a descrever o processo de assentamento como uma complexa interação de diferentes grupos nas montanhas: poucos habitantes dos vales, muitos habitantes da região montanhosa, um grupo vindo do Egito com a experiência do êxodo, grupos vindos da Síria... O grupo do Egito trouxe Iahweh, enquanto o grupo sírio, de agricultores despossuídos, trouxe a circuncisão e a proibição da criação do porco e criou o nome 'Israel' no século XIII a.C. Todos estes grupos foram reunidos pela necessidade de manter rotas de comércio abertas com a ausência do Egito na região. Progressivamente controlaram também as planícies, levando ao surgimento da monarquia. Halpern sublinha ainda que o Israel histórico não é o Israel da Bíblia Hebraica, mas foi o Israel histórico que produziu o Israel bíblico.

William Dever vê o surgimento de Israel entre as populações que praticavam a agricultura na Palestina e rejeita a dicotomia cananeu/israelita, dizendo que a distinção entre urbano e rural explica as diferenças, que são funcionais e não étnicas. Para Dever Israel se formou de refugiados das cidades, 'bandidos sociais' (social bandits), alguns revolucionários, uns poucos nômades, mas, principalmente, cananeus saídos das cidades. Na região das montanhas eles progressivamente criaram uma identidade que os diferenciou dos cananeus das planícies.

Thomas L. Thompson, um dos mais polêmicos “minimalistas” é ferrenho defensor de uma História da Palestina escrita somente a partir dos dados arqueológicos e crítico de qualquer história e arqueologia bíblicas. Thompson observa que a população da Palestina permaneceu inalterada durante milênios, movendo-se os grupos entre as cidades das planícies e os povoados das montanhas segundo as estratégias de sobrevivência exigidas pelas mudanças climáticas, principal fator de transformação social e política da região. A população das montanhas era formada por nativos da região, que se misturaram com gente que veio das planícies, pastores de outras áreas e imigrantes da Síria, Anatólia e do Egeu. A unidade política de Israel só aparece na época das interferências assírias na região, no século VIII a.C., no que diz respeito a Samaria, e no século VII a.C., quando Jerusalém, após a destruição de Lakish por Senaqueribe, torna-se líder da região sul, como cidade cliente da Assíria. Toda a 'estória bíblica' do império davídico-salomônico e dos reinos divididos de Israel e Judá é, para Thompson, pura ficção pós-exílica.

Por fim, Donald Redford, egiptólogo, defende que existe uma diferença entre os habitantes das planícies e os habitantes das montanhas. Ele sugere que o núcleo da população nas montanhas era formado por pastores que se sedentarizaram, mas que pastores shasu vindos de Edom, e trazendo consigo o culto a Iahweh, também ali se assentaram, dando início ao futuro Israel, para ele, distinto dos cananeus.



Conclusão

O modelo da instalação pacífica (de ALT/NOTH) sempre foi muito considerado. O modelo de MENDENHALL/GOTTWALD, de uma revolta de camponeses marginalizados que somam suas forças aos recém-chegados hebreus do êxodo foi o mais discutido até a década de 90. Outros, como o de LEMCHE, de uma evolução progressiva, ainda não conseguiu espaço.

O consenso dos especialistas tende a crescer na seguinte direção:

1. A arqueologia é importantíssima para definir o modo como Israel ocupou a região da Palestina

2. O elemento cananeu cresce em importância na explicação das origens de Israel.

Certamente a arqueologia, a análise minuciosa dos textos bíblicos (exceto para alguns 'minimalistas') e as ciências sociais. A contribuição da antropologia é cada vez maior para explicar estes mecanismos sociais antigos.



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